Apesar de reconhecer que são divertidos, acho que nunca li um Harry Potter inteiro – se li, esqueci, assim como acabo esquecendo os filmes da série, poucos minutos depois de sair do cinema (ou mudar de canal). Também jamais lerei um Pauno Coelho, ou Danielle Steel ou sei lá qual entre tantas Barbara Cartlands genéricas. Mas confesso que já li – e prometo que ainda lerei - muita porcaria, e se é impossível negar que a maioria delas foi tempo perdido, de algumas a verdade é que eu gostei bastante.
Mas andei pensando e me parece que, mesmo que não tivesse gostado, eu ainda acharia que é melhor ler bobagem do que não ler nada. Um livro, por fraquinho que seja, sempre tem a vantagem de nos mostrar outros pontos de vista, jeitos de se exprimir, palavras novas. Aos livros, que na minha infância eram bem revisados e traduzidos – diferentemente de hoje – eu devo a maior parte do meu vocabulário e 100% dos meus acertos em gramática e ortografia até agora. Posso até implicar com quem escreve e com quem publica maus livros, mas não com quem os lê. Talvez porque, num mundo em que é cada vez mais lindo se considerar melhor, mais inteligente e capaz do que o resto da humanidade e deixar isso cansativamente claro 24 horas por dia, meu “docontrismo” inato esteja me levando a ficar mais tolerante do que me seria natural.
Ou talvez seja somente porque, depois de já ter almoçado num restaurante de nome assustador, e de ter acabado de comprar um bolo diet de uma empresa de nome macabro, eu tenha ficado com a sensação de que, se os donos ou responsáveis pela “criação” de tão nefastos nomes tivessem lido o bom e velho Jorge Amado (digam o que disserem, eu gosto do véio) em Dona Flor, em que o cafajeste (sim, com J, pelamor) Vadinho repetia lascivamente à professora gostosinha de culinária o nome que ela havia posto em sua escola, sussurrando no ouvido da moça “Quero Sabor & Arte”, talvez eles tivessem visto o absurdo que estavam a ponto de fazer e buscado nomes melhores, que não inspirassem em seus clientes o medo do canibalismo e da ameaça de morte (nem tão) veladas dos pratos da Cozinharte e dos bolos diet da Fin’Arte. Brrrr.
Às vezes eu acho que o que eu preciso mesmo é de um superego externo. Tipo ou uma coleira que dê choque quando eu começar a rosnar para estranhos (ou conhecidos, ou, vá lá, até amigos, parentes, chefes, autoridades e pára-quedistas variados) muito folgados, ou alguém que fique no meu pé 24h por dia, me dando um cutucão sempre que sentir que eu vou fazer ou falar ou escrever algo que não deveria.Pensando bem, melhor a coleira. Porque se o tal superego externo fosse uma pessoa, perigava eu enfiar a mão na orelha dela no segundo ou terceiro cutucão. E aí precisaria de um segundo superego pra me prevenir de bater no primeiro, e um terceiro, e um quarto... é, não ia dar certo. Eu não tenho dinheiro pra pagar tanta gente – e mais os processos por lesão corporal que certamente se amontoariam – nem pra trocar meu carro por um ônibus de dois andares. Sem falar que é pouco provável que o gatim aceitasse dividir nossa cama com uma dúzia de pessoas, ainda mais do tipo ideal para o emprego, ou seja, reprimidas e repressoras. Será que yoga funciona ? Ohmmmmmmmmmmmmm...
Eu não sei se já falei disso aqui antes, e é bem provável, mas vou falar de novo : eu não lido muito bem com tristeza. Por alguma razão, normalmente (usar o termo “normal” aqui é quase uma piada, mas entendam, é uma normalidade derivada da quantidade de vezes em que isso acontece, e não da qualidade) minha cabeça transforma a tristeza em raiva ou irritação tão rápido que eu mal chego a notar que estou triste, e não puta da vida. Não é sempre, óbvio. Mas é o suficiente pra eu saber que não é lá muito saudável. Por causa disso, minha fama de griladinha da estrela já está mais do que consolidada por aqui, e se por um lado isso me prejudica um bocado, por outro também faz com que vários malas – sejam eles plenamente desenvolvidos ou ainda em formação – tenham um certo cuidado comigo, evitando entradas na bola com pé alto e se refreando de tomar intimidades não dadas com muita frequência. Não dá pra negar que eu gosto disso. O problema é que, desacostumada à tristeza, em alguns momentos eu simplesmente não sei o que fazer com ela. Eu posso ser mal-humorada, mas não sou burra. Eu sei reconhecer quando a raiva simplesmente não se aplica. Quando quem faz eu me sentir mal não tem culpa disso, e certamente o evitaria se pudesse. Talvez por isso, nesses momentos o que costuma acontecer é que eu fico fisicamente doente. Mais do que o habitual, quero dizer. Uma enxaqueca que já vai para o 3º dia sem dar mostras de diminuir, náusea permanente, dores variadas, uma insônia ainda mais feroz do que a costumeira e uma absoluta falta de vontade de viver tomaram conta, desde o fim do mês passado, deste arredondado corpitcho que é meu latifúndio. Chegaram sem a menor intenção de ir embora, com seus bonés feios, suas barracas de plástico preto e bandeiras vermelhas, dispostas a só sair depois de deixar a terra arrasada, e tentar me livrar delas é como tentar bater o recorde dos 100m nadando borboleta de ré, vestida de escafandro e numa piscina de melado. A melhor amiga do mundo e o melhor marido do universo dão uma força pra eu não afundar de vez, mas pelo menos por enquanto, não são capazes de operar milagres. Nessas horas, a única coisa que, se não ajuda, pelo menos consola, é uma que o gatim sempre me diz, há anos, quando não há muito mais o que dizer : “vai passar, vai passar”. Só espero que isso aconteça logo e/ou que essa somatização toda pare logo, pra que se, ahem, quando a tristeza e o desânimo passarem, eu não passe junto, desta para uma melhor. Ou, dentro do meu estado de espírito atual, para uma pior ainda.