Bobagenzinha rápida, que o assunto aqui tá pouco e o tempo também : alguém mais acha a primeira-cunhada francesa - e também atriz, Valeria Bruni-Tedeschi - a cara da agente Scully do Arquivo X ou sou só eu ?
Ontem à noite vi um documentário pavoroso, de tirar o sono, sobre as condições de vida dos trabalhadores chineses e/ou tailandeses que fazem esses produtinhos tão baratinhos que a gente compra por aí. Por isso, quando fui comprar malas hoje, e notei que quase todas as que estavam expostas eram Made in China, pensei seriamente em deixar pra lá, ou em ir procurar noutro lugar. Mas o tempo urgia e a falta de grana rugia, ou seja, ia ter que ser lá mesmo, no hipermercado de gente fedida*, onde eu sempre vou quando quero economizar meus magros caraminguás. Aí procurei mais e notei, meio escondida, uma outra mala/sacola com rodinhas, Made in Brazil (onde os industriais podem até não tratar seus operários como merecem, mas também não chegam – que eu saiba - a comprar crianças dos pais por US$ 600,00 e amontoá-las em galpões, alimentando-as em tigelas de servir comida a cachorro e forçando-as a trabalhar de graça mais de 12 horas por dia). Apesar de ser mais cara – uma única custava mais da metade do conjunto chinês, que era composto por 2 malas, uma sacola e uma nécessaire caprichada – eu me entusiasmei : afinal a bicha era legal, muderna, bonitinha, de preço bom e beeem mais leve, tanto pros meus músculos quanto pra minha consciência. Só que aí notei que ela tinha uma espécie de abreviatura da marca, em baixo-relevo, numas estilosas chapinhas de metal espalhadas pelos bolsos externos, zíperes e sei lá onde mais. Abreviatura esta que era nada mais nada menos do que o nome da agência onde eu fui mais infeliz em toda a minha longa e acidentada vida profissional. É uma vergonha, é um horror, é uma tristeza admitir, mas a superstição e o pensamento mágico falaram mais alto : levei as chinesas. Mas prometo que foi a última vez.
*Explicando a piada interna : é que toda vez que a gente vai lá, o Gatim se finge de horrorizado com os cartazes que anunciam “ATENÇÃO, SENHORES CLIENTES : NÃO TROCAMOS ROUPAS ÍNTIMAS” e se pergunta se pelo menos as meias eles trocam de vez em quando.
A moda é sim, mas não é apenas, uma forma de feiúra tão intolerável que é preciso mudá-la a cada seis meses, como dizia Oscar Wilde. Ela é mais que isso : é um acordo tácito mundial para suspensão de julgamento - com data para começar e (felizmente, na maioria dos casos) para terminar. Eu a vejo como uma espécie de salvo-conduto temporário para exercer o mau gosto e a falta de critérios em público, mas sem temer a execração pública. Só isso pode explicar o rapaz que eu vi agora há pouco, atravessando a rua com seus enormes óculos escuros de armação grossa e branca, se achando todo lindo e sem ser apedrejadonem “rido” (tá bom, a palavra não existe, mas cês entenderam) pelos circunstantes. Duvidam ? Imaginem ele fazendo isso há uns cinco anos – ou tentando repetir daqui a outros três, por exemplo.
Pensando bem, isso é meio triste, né ? Um mundo onde até para ser louco ou bobo (ou original, ou genial - é bem mais raro, mas uma vez a cada lua azul o milagre acontece) você precisa esperar até que todos decidam ser loucos ou bobos (ou geniais ou originais) junto com você – e por um curto período, com o prazo de validade não-escrito, porém muito real. Eu acharia bem mais legal, ainda que esteticamente horroroso, se o moço pudesse usar seus tenebrosos óculos, de repente até acompanhado de meia-calça fúcsia, pochete de bolinhas e bermuda xadrez, sem ser julgado por isso, nem pro bem nem pro mal, e sempre que quisesse, dos 4 aos 80 anos - ou mais.
Claro que ia ser mais difícil pra indústria da moda vender revistas, cursos, roupas, lojas e pessoas, e bem mais complicado ganhar um montão de dinheiro às custas da insegurança dos outros, mas ainda assim acho que seria um mundo bem mais variado, colorido e interessante. Mas provavelmente eu tô falando bobagem, né ? Não liguem não, me dêem um desconto. Eu sou só uma coroa fora de forma, fora de centro e sempre (e pra sempre) fora de moda. Graças a Zeus.
Gatim me conta por MSN que o poderoso DD, capa de todas as revistas, motivo pra se instalar porta giratória em todas as cadeias e assunto de todas as conversas das últimas semanas, era professor do MIT aos 25 anos, considerado gênio financeiro pelo Citibanke outras mumunhas comprobatórias do privilegiado cérebro do ladravaz contumaz. O que só vem comprovar o que eu já suspeitava : ser honesto num país como o nosso é coisa de gente burra. Ió, ió, ió.
Por falar em ser burra, é bem provável que eu esteja ou vendo chifre em cabeça de cavalo ou descobrindo a pólvora- e com décadas de atraso - , mas peraí, sou só eu que vejo isso ou “Jailhouse Rock” tem mesmo a letra mais gay da história da música ?
Por falar em cadeia, acho que eu venho fazendo um bom trabalho em me livrar de minhas próprias correntes, diminuindo meu orgulho – with a little help from the whole world, but still -, o que é ótimo, já que assim consigo não senti-lo tão ferido a toda hora. Mas tem gente que realmente abusa... e são esses que a gente ficatorcendo pra ver caírem do cavalo. De leve, nada que provoque paralisia, ossos quebrados, nem mesmo uma luxaçãozinha à toa, mas do tipo que cause extensos e graves ferimentos... exatamente, lá mesmo, bem no meio do orgulho deles.
Por falar em dor, engraçado (?), eu tava me lembrando de que duas das frases mais doloridas e tristes sobre relacionamentos que eu já li na vida foram escritas por humoristas. Uma do Millôr (que, aliás, podia muito bem ter se aposentado depois dela) : “Se você chega em casa às 4 da manhã e sua mulher não fala nada, é que já é tarde demais” e a outra do LFV : “Eu preciso que você abra este pote porque é a única coisa neste casamento que eu não faço sozinha - e melhor do que você.”
E por falar nisso : sim, eu acho o budismo a religião mais legal – ou, pra ser sincera, a menos escrota – de todas, mas tenho uma questão fundamental : se é preciso ter compaixão infinita e indiscriminada para com todos os seres, será que a gente pode rir ? Porque, se você reparar bem, todas as coisas engraçadas são, normalmente, coisas horríveis que aconteceram com outra pessoa. O riso é, aparentemente, uma forma de demonstrar alívio porque aquilo não foi com a gente. Sendo assim, rir não me parece especialmente compassivo, né ? E se quem tem compaixão não pode rir, Buda que me perdoe, mas acho que vou continuar agnosticazinha da Silva Xavier, mesmo. É que, parodiando Friedrich W., aquele bigodudo doido-porém-lúcido, não posso crer num Deus que não saiba rir.
ou …E TUDO ACABA EM DP (MAS NÃO DESSE TIPO, SEUS MENTES-SUJAS)
Eu nunca fui uma pessoa com tendências autodestrutivas. Nunca fui de beber demais, abusar de drogas, pisar no acelerador feito uma doida, andar na beira do precipício. Nem de andar de montanha-russa, tobogã ou com minha irmã dirigindo (hohoho) eu gosto. Então por que será que justo agora, em plena e dolorida meia-idade, eu provoco meu frágil, combalido e problemático sisteminha digestório (eu sei, é feio, mas os médicos dizem que o nome do ex-sistema digestivo agora é esse e pronto, e quem sou eu pra discutir, né ?) com uma quantidade absurda de spaghetti à carbonara, com ovo, bacon, parmesão E creme de leite... às dez da noite ?
Depois de uma semana trabalhosa, sofrida e – admitamos – ligeiramente suja, finalmente habemus doméstica de novo. Ela é ótima, confiável, cozinha bem, e como costuma acontecer comigo, já trabalhou na minha família antes – e é parente da antecessora. Fico muito contentinha da minha vidinha, mas já percebi que, infelizmente, enquanto ela estiver lá em casa, jamais terei uma conversa diurna só à deux com o gatim novamente, a menos que estejamos fechados no quarto. Aiai.
Por falar nela, gatim falou outro dia, e com razão, que nosso lar, dietético lar, está virando uma espécie de abrigo da terceira idade. A empregada nova (heh) tem mais de 60, a passadeira está se aposentando, eu e o supracitado estamos a cada dia mais gordinhos, cansadinhos e enrugados (e prateados !) e até a Nina, com 8 anos, segundo a minha (ops, ói o ato falho aí, gente !) quer dizer, segundo a veterinária DELA, já pode ser considerada uma senhora. A vantagem da minha menina – e do maridón também, actually - sobre nosotras todas é que, mesmo velhusca, ela continua perfeitamente gata.
Eu costumava achar que só era feliz quando chovia, mas com o friozinho extemporâneo que está fazendo por aqui, descobri que também sou muito feliz quando a temperatura cai pra abaixo de 20º (e nunca abaixo de 10º). Mesmo que contusões antigas voltem a doer, eu precise gastar ainda mais hidratante que o habitual e que meus cotovelos comecem a se parecer com a delicada pele dos joelhos dos camelos e as solas dos meus pés com patinhas de elefante, meu humor melhora e eu cantarolo o dia inteiro. Na verdade, nisso (também) eu sou igual ao que diz o poeminha da minha querida Dorothy Parker:
Summer makes me drowsy
Autumn makes me sing
Winter’s pretty lousy
But I hate spring.
Aliás, já que ela não pode mesmo ler e ficar indignada com seu nome figurando junto à abissal ruindade e à absoluta falta de métrica da minha criação poet(étr)ica, aqui vai um repente-trovinha-estilhaçada que eu acabo de fazer em sua homenagem. É uma porcaria, mas é de coração, viu, Dottie ?
Dizem que quem mais entende
De mulher e de amor é o Chico Buarque
Mas eu me identifico e me divirto (no end)
Mais com a gringa morta e doida da Dorothy Parker.
Quase sempre, nos deliciosos jantares que oferecia com freqüência, um amigo nosso costumava dizer (pode ser que ainda diga, mas ele se descasou, recasou e se mudou, e eu já não o vejo há um ano, então não tenho certeza), a certa altura, “se eu fosse imperador do universo”... e emendava com alguma proposição tão excelente quanto impossível, ou – sem deixar de ser ótima – completamente sem pé nem cabeça. Eu adorava, porque pra mim parecia coisa da Emília (não exatamente a do Monteiro Lobato, e certamente não a da TV Globo, mas a minha, aquela que eu imaginava ao ler os livros, e que era a melhor de todas, disparado – na minha modestíssima opinião) e porque era sensacional ver um sisudo senhor de cabelos e bigodes brancos, cultíssimo, sendo pueril e falando asneira sem o menor pudor, mas na maior convicção.
Imaginem se euzinha, nem de longe tão culta quanto meu amigo, e ainda tendo mais de 70% dos cabelos pretos (pra não falar nos 7 ou 8 anos a menos que ele), iria resistir a um surto de infantilidade e à tentação de resolver os problemas do mundo com duas ou três idéias mal-cozidas em quinze minutos de tempo livre. Claro que não.
Por isso em verdade, em verdade vos digo, que pra mim, no meu indisputado, hipotético e vitalício cargo de Imperatriz do Universo, o que resolveria a maior parte dos problemas da humanidade – ou da atualidade, o que no es lo mismo, pero es igual - seria um role reversal intermitente e compulsório para rigorosamente todas as pessoas vivas. De preferência com umas ocupando o lugar justamente daquelas que elas consideravam, de uma forma ou de outra, seus opostos, ou até mesmo inferiores, erradas, desnecessárias.
Assim, intelectuais, administradores de empresas e artistas seriam obrigados a pegar no cabo da enxada, da panela ou do carrinho de mão, pilotar um tanque (de roupa ou blindado, tanto faz), um fogão, um caminhão ou uma ala de presídio e durante pelo menos um mês, a pelo menos cada cinco anos, viver do suor do próprio rosto e da força do próprio muque, e com os salários que ganham essas pessoas, vivendo onde elas vivem, comendo o que elas comem, andando de busão ou de Chevette feito elas. Os braçais, claro, teriam que se virar pra fazer com um mínimo de competência trabalhos de escritório, cálculos financeiros, programar ações de marketing, fazer reportagens, escrever para jornais, TV e revistas, criar promoções, redigir e atuar em espetáculos de entretenimento etc.. Quem se revelasse melhor na nova função do que na de origem poderia continuar nela, se assim quisesse, e quem não visse a hora de voltar pra vidinha de sempre pelo menos voltaria – depois de um mês – com uma compreensão maior do que são a vida e os problemas dos outros, e talvez até com um pouco mais de simpatia pelos “do lado de lá”.
É ingênuo, claro, mas também é bastante lógico, imaginar que, depois de uma experiência dessas, as pessoas de cérebro mais permeável e coração menos burro acabariam mudando de comportamento e de hábitos, não porque igrejas ou livrinhos lhes aconselhariam, mas por, finalmente, saber de verdade, na pele e nos ossos, o que é ser aquela pessoa, passar aquele calor ou frio, sentir aquela fome, aquele medo, aquela vergonha específicas.
Ainda que meu programa não fosse capaz de extinguir, aos poucos mas de uma vez por todas, bizarrices como pittboys, patricinhas, coronéis da política ou skinheads, acho que deixaria a humanidade mais digna deste nome. E se não deixasse, bom, aí era a hora de chamar o paredón e a guilhotina e botar ordem no puteiro. Porque afinal de contas, que graça teria ser Imperatriz do Universo se eu não pudesse, pelo menos de vez em quando, instaurar o absoluto terror ?
Eu sei que “Picuinha” é meu nome do meio (o prenome deveria ser “Pinimba”, e o sobrenome, “Pirraça”, gerando o fofo apelidinho Pipipi – ou Pepepê) mas, por favor, me digam que não sou só eu que fico puta quando pergunto o preço de um perfume numa loja qualquer e, em vez de simplesmente me contar a porra do preço, absolutamente TODAS as vendedorinhas de TODAS as lojas “corrigem” minha pronúncia. Certo, meu francês é parco e pobre, e eu posso estar errada mesmo (mas prefiro ser corrigida por quem realmente sabe do que está falando, o que nunca me pareceu ser o caso), mas ainda que esteja, o que é que custa as vachettes me deixarem chamar um deles de Ana-ís e o outro de Hip-nóse ? Não, não, nenhuma nunca perde a chance de falar “Ah, o anaisanais (ou anêanê, ou até anéané, a pronúncia delas varia bastante, mas o ímpeto corretivo jamé) de 50 ml custa...” ou “Hm, você tá falando do Hipnôôôuse, né ?”.
Mas peraí, e se eu estiver certa ? Tudo bem, eu fiz só uns poucos meses de francês e já faz tempo, mas ainda lembro o pouco que aprendi e minha pronúncia costumava ser bastante elogiada pelo Georges, Monsieur le professeur. Além disso, conheço meus conterrâneos, e por isso sou capaz de apostar que se eu disparasse umas três ou quatro frases na língua que batiza 90% dos produtos que elas vendem, nenhuma saberia me responder, ou sequer entender ce que je viendrais de dire.
Pois é, posso estar sendo excessivamente suscetível, mas acho indelicado da parte delas fazer isso com os clientes. Principalmente comigo, que mesmo tendo um inglês bem decente, há anos venho escutando caladinha CD-Rom ser chamado de “cederrum”, Home-Theater de “romitieite” e mousepad de “pé-de-mause”, pra citar só as primeiras barbaridades que me vêm à cabeça. E que, a não ser que seja alguém muuuuito próximo assassinando o idioma (ou que me perguntem se eu sei a pronúncia correta), nunca conto ao boboparlante qual o jeito certo de falar aquilo. O mesmo vale pro português – e quem não acreditar que eu consiga ficar quieta, pergunte ao cliente aqui da agência, que falou “menas" numa reunião ontem, se eu dei um pio. Tremi, é verdade. Passei cinco minutos semolhar pra nenhum dos coleguinhas presentes, claro. Minha chefe arregalou os olhos enquanto rezava pra eu ficar calada, mas nem precisava. (Até porque eu sempre posso reclamar, rir e sacanear os outros aqui no blog, né ?)
Mas nada disso se compara à perplexidade que eu acabo de sentir, ao ser “corrigida” pelo Google, que respondeu à minha perfeitamente válida e - quase - gramaticalmente correta questão "Por que as cuecas samba-canção têm esse nome" com um firme e autoritário Você quis dizer: "Porque as cuecas samba-canção tem esse nome". O mais divertido é que o “esse”, que eu devia ter escrito “este”, ele não corrigiu. Era só o que faltava. Até Deus tá ficando analfabeto.
THEY'RE TRYING TO MAKE ME GO TO REHAB, I SAY NO, NO, NO.
A internet é o demo. A internet é um vício. A internet é um trem tão malígrino que me acorrenta na cadeira e me força a ficar acordada até as 5h30 da matina, assistindo a videozinhos que ensinam truques culinários e receitas interessantes. Tudo bem, adorei a dica de como tirar pele de tomate, como fazer minúsculos e perfeitamente idênticos cubinhos de cebola de um jeito bem mais fácil e como fazer temaki em casa, mas será que alguém acredita que algum dia eu vou ter tempo, paciência e coordenação motora pra fazer, por exemplo, tortillas, sejam elas de batata, farinha de trigo ou de milho ? Não, né ? No entanto, se “O dia em que a Terra parou” patrocinado pela Telefónica em SP tivesse entrado em cartaz aqui em Boiânia, acho que eu tinha surtado bonito. E talvez, quem sabe até... dormido à noite. Ou trabalhado bem mais de dia.