Não sei o que tanto estão estranhando o fato de um certo Capitão Roberto ter virado herói da parcela assustada (e assaltada) da população brasileira. Se você reparar bem, desde que o mundo é mundo, TODO herói, seja ele do tipo imortal, divindade, super ou do tipo – relativamente, claro - trivial, é, acima de tudo, um fora-da-lei. Antes que me venham citar o barbudinho de Nazaré, Ghandi e Luther King, já deixo claro que, pra mim, herói é uma coisa, mártir é outra, e eu aqui tô falando é de heróis, e não os do tipo “Meu herói”, mas os heróis de todo mundo, daqueles cuja história depois vira livro, filme e/ou vende bonequinhos e produtos licenciados para parvos de todos os matizes (myself included, of course).
Os heróis mortais, verdadeiros ou ficcionais, desde Gilgamesh, Ulisses e Aquiles até Bolívar, Zapata, Garibaldi (do Che Guevara não vou nem falar, que eu não sou besta), Luke Skywalker, Aragorn e outros bichos e bichas, por mais bem-intencionados e salvadores da pátria que fossem, sempre mataram geral, sem problema e sem remorsos. Ou pelo menos, nos momentos mais light, roubavam bastante, ainda que, como Robin Hood, o roubo fosse levado como forma não-heterodoxa ortodoxa de distribuição de renda ou - como fizeram os cruzados, com mais cara de pau e santimônia - em nome de JC, aquele mesmo que mandava não guardar tesouros na Terra e amar os inimigos. Ainda assim, independente da força da retórica de cada um dos heróis-malacos assinalados ou da capacidade da platéia de relativizar tudo, todos esses bravos rapazes sempre agiram mesmo foi fora da lei, tanto a “de Deus” quanto a dos homens.
Os super-heróis, esses então mereciam estar nas listas de criminosos mais fodões de todos os tempos, já que conseguem, os exibidos, desrespeitar até as leis da física. Gravidade, termodinâmica, as de Newton, as biológicas, ou até as leis do karma, sei lá eu, naaaada segura esses meninos. Nem mesmo as pobres leis do bom gosto - less is more, por exemplo - atingem essa turma, como você pode comprovar facilmente só de olhar pras roupinhas e penteados deles (o cabelo e costeletas do Wolverine e o uniforme do Super-Homem são os principais, mas de forma nenhuma os únicos).
Não, eu não estou defendendo o culto à violência, à polícia matadora ou a torturadores de qualquer tipo ou bandeira política, até porque normalmente não sou do tipo que suspira por uma farda (nem mesmo acho o - excelente ator - Wagner Moura essa delícia toda) e não acredito que alguém consiga ser violento só durante o expediente ou só com uma pequena e pré-determinada parcela da humanidade.A única coisa que estou dizendo é que não me espanta o auê. Porque desde que o primeiro hominídeo olhou pra cima e pediu ao sol ou à lua que lhe desse o bisão seu de cada dia, parece que de um jeito ou de outro, em qualquer lugar do mundo, todo mundo, lá no fundo, (aliteraçõõõões mil) sempre sonha com um herói que lhe dê sossego e o salve do perigo, ainda que – ou principalmente – agindo por fora, abaixo, acima ou ao arrepio (uiuiui !) da lei.
IMPLICÂNCIAS GRATUITAS (OU NEM TANTO) E PENSAMENTOS DESCONEXOS
Atrasadinhas, porém fofas, doces e queridas demais, minha mãe e minhas irmãs me deram uns presentinhos lindos, no fim de semana. O motivo ? Dia das crianças, hohoho. Tudo bem que apesar de os presentes serem pra criança que eu sou, não eram brinquedos (eram bijoux), mas não faz mal... os brinquedos eu mesma compro !
Vi na HBO um programa inteiro dedicado a uma piada, muito conhecida entre os comediantes lá dos esteites, em que uma família entra no escritório de um agente de talentos e apresenta um número (completamente asqueroso) para tentar convencê-lo a arrumar trabalho pra eles. O começo e o fim são sempre iguais, mas cada um conta e enfeita o corpo da piada da maneira que achar melhor : de preferência da pior, mais escatológica, incestuosa, nojenta e repugnante forma possível, e por quanto tempo conseguir espichar a história. O final, ligeiramente anticlimático, acontece quando eles encerram o número (num gran finale de fazer Calígula corar, Sade chorar e a Madonna soltar um “Oy, vey” escandalizado) e o agente pergunta o nome da trupe – ao que eles respondem “os Aristocratas”. Até entendo a lógica da piada, mas estranhei que os americanos, que aliás nem têm uma aristocracia de verdade, achem o nome tão profundamente contrastante com o horror show : pra mim, aristocracia sempre foi ligada a tudo isso aí mesmo. Ou será que ninguém por lá nunca assistiu a “Il Gattopardo” ?
Toda vez que eu tento falar rapidinho com um médico ao telefone, só pra tirar uma dúvida ou, sei lá, pedir uma alternativa a um medicamento que deu algum efeito colateral, o bom doutor nunca pode : está sempre atendendo alguém. Tudo bem, eu não ia mesmo querer atrapalhar ou interromper a consulta de quem quer que seja. No entanto, toda vez que eu estou sendo atendida por um deles, o telefone toca - várias vezes - e ele(a) sempre atende, conversa, explica, lê ou escuta resultados de exames, ouve longos relatos, dá explicações compridas e repetidas em linguagem for dummies e, ao desligar, já se desligou completamente de mim, do meu problema, do que ele(a) me dizia, e de tudo o que eu já tinha dito. Numa estranha terça-feira em que estive em dois médicos diferentes, o primeiro interrompeu minha consulta QUATRO vezes para atender ao telefone e quase não lembra de me passar a receita, e a segunda, depois de três telefonemas, errou no pedido de um exame e ia se esquecendo de pedir outro - eu é que tive que lembrá-la. Pergunto : será que esses telefonadores que conseguem ser atendidos são simplesmente mais simpáticos ou mais insistentes, sem noção e mais chatos do que eu ? E isso acontece com mais alguém ou é só comigo ?
Tudo bem que os publicitários que criam esses comerciais nacionais devem ser todos paulistanos, meninos-prodígio de 12 anos, nascidos em Higienópolis, criados à base de panquecas com maple syrup, cujos motoristas, arrumadeiras e babás todos falam como Eliza Doolittle no final de My Fair Lady; que os geniozinhos provavelmente trabalham na Vila Olímpia e se divertem na Vila Madá – ou no SoHo, ou TriBeCa, ou em Berlin (porque NY anda assim meio detraquée, néam ?), e que acham têm certeza de que o Brasil se divide em cinco estados : São Paulo, Rio, “o Sul”, Caipirolândia e Bahia. Mas, sinceramente, se eles vão criar campanhas nacionais, não seria de bom tom tentar saber um pouquinhozinho mais sobre o resto do país, não ? Dito isto, me respondam, amigos de Minas, Pernambuco, Amazonas, Goiás, Espírito Santo, e até os paulistas não-umbigocêntricos : sou só eu que morro de rir com aquele comercial de operadora de celular que fala que vai passar o cartão de crédito “no seu oi” ?
Ainda sobre comerciais : será que existe uma competição entre as agências que atendem contas de cremes dentais e de aromatizantes de ambiente para ver quem faz os piores ? Os de cremes dentais todos ultimamente mostram péssimos atores fantasiados de dentistas, a maioria de nariz entupido e dizendo coisas como “é por isso que eu confio o creme tal ao meu paciente mais importante” (confia o creme “ao” paciente ?! Não seria o contrário ?), ou incorporando pacientes, dizendo com cara de besta textos na linha “200 problemas bucais ? Na minha boca não”, mas com defeitos de dicção tão graves que devem ser responsáveis por pelo menos 194 dos tais problemas bucais (e que eu duvido que algum creme consiga resolver). Entre os aromatizantes, o cagão-cabeça-de-cuia e amigo-da-onça-e-do-Pedrinho está de volta, apesar de ser unanimemente odiado por todos os brasileiros que já o viram, e agora ainda disputa o troféu limão com um outro, em desenho animado, em que uma elefanta diz que o produto tal é ótimo porque o marido dela tem chulé e deixa os tênis espalhados pela casa... punchline supostamente engraçado: o marido é uma centopéia. Não vou nem entrar no mérito da coisa ou lamentar pela vida sexual dos dois envolvidos nesse estranho casamento inter-espécies. Só vou me perguntar, em vão, o que será que se passava pelo cérebro do redator (além do vento e de um tiquinho de eco) quando resolveu identificar as donas-de-casa com um bichinho tão esbelto, elegante e longilíneo quanto um elefante. Tsc.
De vez em quando alguém vem me contar que fulano, agregado da minha enorme família, beltrana, do ramo em que eu venho trabalhando nos últimos 20 e tantos anos, ou sicrano, do mundinho da internet, por um motivo ou por outro parou de falar comigo, deixou de me cumprimentar ou tentou me dar uma alfinetada num post qualquer. Acho bom quando isso acontece. Digo, quando me avisam. Não porque eu goste de colecionar desafetos, mas porque ando tão distraída que, se ninguém me avisa, perigava eu nunca notar.
Eu venho trocando o dia pela noite faz tempo, mas na semana passada eu achei que não ia dormir nunca mais : é que de madrugada, zapeando, vi um pedação de um documentário sobre Abu Ghraib, e percebi, pela milésima vez, mas com o mesmo horror, que o bicho papão existe sim, e é cada um de nós, seres humanos. Tudo depende das condições de temperatura e pressão, por assim dizer. Ainda bem que minha memória anda pior a cada dia que passa.Mas de qualquer forma, cadê essa nova temporada de sitcoms, que não começa ?! Assim vou acabar sendo obrigada a desligar a TV e ler um livro, né ?!
A Revista Alemã Deutsche Welle faz todo ano o concurso "The Best of Blogs", visando premiar os melhores blogueiros do mundo todo. Como alguma justiça há de haver no mundo, ta lá, de finalista entre os dez melhores blogs em português, o Ao Mirante, Nelson, do meu lindo e talentoso gatim, ao lado de feras como o Alexandre Inagaki e o Marcelo Tas. Como o Sr. Gatim é tímido, modesto e bicho do mato, eu assumo a tarefa e a cara de pau de pedir alguns segundos do tempo de vocês para, se puderem (e se concordarem comigo que ele é simply the best), ir até esta páginado The BOBs, descer até "Melhor Blog em Português" e chuchar – ui ! - um voto no blog dele. A possibilidade de ganhar não é das maiores, mas isso é só porque ainda tem pouca gente que conhece o charme e o veneno desse almirante de terra firme (firme, dura, empoeirada e seca pacarai, aliás.). Mas, de repente, uns votos, ainda que só pra não deixar o gatim na lanterninha da série C, que nem seu time (hohoho), podem ajudar na visibilidade - até porque, quando ele for famoso e sair na capa da VEJA, fazendo cara de inteligente, promete citar de memória um por um de vocês que votaram nele.
Update : ...e já que eu tô jabaculando mesmo, tem coluna nova minha no itodas. Quer me v(l)er bancando a séria ? Vai lá !
... ou OS FRANCESES MENTEM QUANDO DIZEM QUE É BOM SUAR.
Dois padeiros senegaleses, um lord inglês e um cachorro louco se encontram no horroroso aeroporto de uma pequena capital brasileira. É tarde da noite, mas faz 39º C. Os padeiros se abanam. O cachorro baba. O inglês sua feito um cavalo de corrida ao cruzar o disco final. O dia amanhece e o calor piora. Nenhum deles faz menção de sair da sala de embarque, onde um ar-condicionado de 5ª categoria transforma os 39º em 36º, provavelmente só ameaçando o calor com o barulho quase ensurdecedor de seus mecanismos internos. O calor aumenta. O dia passa. Os padeiros senegaleses continuam dizendo um pro outro que nunca viram calor igual. Ao meio-dia, o inglês e o cachorro louco mudam de lugar, saindo de perto da janela e se escondendo no fundo da sala, onde há mais sombra. Horas mais tarde, sem qualquer aviso, começa uma ventania. Lixos variados passam voando lá fora. A poeira, vermelha, da assim-chamada capital é levantada em tamanha quantidade e a tal ponto que em segundos a atmosfera toma uma coloração decididamente marciana. Depois de vários minutos disso, relâmpagos cortam o céu em todas as direções. É lindo. São raios horizontais, diagonais, rendados, que estilhaçam o firmamento já escuro em mil pedaços, num verdadeiro show pirotécnico que, anticlimaticamente, não é seguido de uma chuva à altura de seus esforços. Caem algumas gotas, sim. Suficientes apenas para transformar em lama a poeira que o simum tropical anterior havia depositado, como o amor que os fiéis supostamente deveriam ter por seu deus, sobre todas as coisas. Depois de passada a “chuva”, as nuvens relutam em ir embora e continuam pairando por ali, sem dar mostras de que vão produzir algo de útil, mas também sem sair de cima. Depois de toda essa reviravolta meteorológica, a temperatura cai, a contragosto, um mísero grau. E é aí que a mocinha do balcão de café, com seu sotaque tenebroso, que transforma os rr em uma tentativa (infelizmente) fracassada de engolir a própria língua, diz aos gringos e ao cão mentalmente instável : “Vamos desligar o ar condicionado ? Tô com frio...”.
A polícia ainda não sabe quem foi o autor do homicídio. Suspeitam do cachorro louco, já que o inglês e os padeiros senegaleses parecem desidratados e fracos demais para conseguir matar alguém com tão óbvia fúria e tamanha violência, mas na verdade crêem que nem o cachorro teria tanto sangue frio. Pelo menos o ar continuou ligado.
Eu sei que o boteco aqui anda pouco atraente pras visitas, mas não me custa nada fazer o comercial, e nem a vocês prestarem atenção uns minutos. Até porque o produto é bom e vocês merecem se dar esse presente. Então, caso haja algum interessado, declaro que a minha, a nossa, a vossa querida, doce, maravilhosa e magnífica Falmanda avisar que estão abertas as inscrições do seu fenomenal curso de Arte na História.Copiando e colando as palavras da mestra, com um leve copidesque, só porque eu sou assim, metida, lá vai : o curso é totalmente virtual, mas se houver quem se interesse, talvez ela abra uma exceção e faça reuniões mensais, só pra fofocar, lá em São Paulo. Não, não é preciso estarem todos conectados ao mesmo tempo para mandar e receber aulas. É legal e bacana, é a quinta vez que ela dá esse curso na rede, sempre dá certo (né, ex-alunos??). As aulas são do caralho, são muitíssimo bem escritas, e ela pega na sua mão pra te explicar as cousas. Além disso, vai ter atividades paralelas, discussões à parte, esse vai ser de arrebentar. Não perca, nem que seja pra poder dizer, mais tarde, que você conheceu a grande Fal quando ela ainda não era mundialmente conhecida e reverenciada (isso ainda vai acontecer, garanto e aposto) e dava aulas de História da Arte pela internet.
Peça informações aqui: artenahistoria@gmail.com
E divulgue no seu blog, se vc achar que deve. Convide seus alunos, seus amigos, seus correligionários. :o))))
ARTE NA HISTÓRIA
Aula I Arte. Que é isso? Algumas teorias sobre o surgimento da arte. Pedra lascada, pedra polida. A vida como nós a conhecemos: as primeiras civilizações No princípio era o verbo Dos tijolos sumerianos aos jardins suspensos da Babilônia, passando pelos gatinhos do Egito. Os números da Maloca Tantos povos, tantas histórias: persas, minóicos, micênicos, hititas, lídios, medos, dóricos fenícios, cartaginenses e, ufa, hebreus
Aula II Se oriente rapaz I: China e Índia As crianças da Grécia Os geniais etruscos Roma e a não-arte
Aula III Balaio de gatos: bárbaros germânicos, arte românica, gótica e a Idade Média Construindo catedrais com a Ana Paula Se oriente rapaz II: Japão
Aula IV Humanismo Grandes navegações: o mundo diminui A terra é mui graciosa, tão fértil eu nunca vi Apertem os cintos, o Papa sumiu
Aula V O barroco francês, Rembrandt, Bach e outras coisas do século XVII que fazem meu coração sorrir Bebendo café com o Mauro
Aula VI Carneirinho, carneirão: o Arcadismo Born in the USA Eu sou Napoleão Bonaparte Linha de montagem
Aula VII Vizinhos Reais Noutras palavras, sou muito Romântico Romantismo Português, ó pá! Eu te amo, porra! - Romantismo no Brasil Evolução: 'Sua mãe pode até descender dos macacos, mas a minha não'
Aula VIII A vida como ela é: O Realismo A Natureza é tão natural Simbolismo Lerê Lerê República ou morte Impressionante Freud, explica!!
Aula IX Século novo, vida nova Espartilhos e grandes bigodes: a Primeira Guerra Mundial Futurismo, cubismo, dadaismo: é ismo que não acaba mais Modernismo: Brasil e Portugal Derretendo relógios Fazendo moda, fazendo arte Nós cantamos na chuva A Segunda Grande Guerra Baby boom O anjo pornográfico
Aula X Flower Power, o passaporte pra revolução As veias abertas da América Latina Coca-cola é isso aí: a publicidade e o divino, e as malas da Carla San Moda, cinema, literatura, poesia, arquitetura, teatro, pintura, escultura, publicidade, rádio: stress puro ou seu dinheiro de volta. O Havaí seja aqui : internet, a nova arte e o diário coletivo De volta à pintura de paredes: os novos urbanos
São 44 anos, a cada dia mais charmoso, mais lindo, mais fofo, mais inteligente, mais criativo, mais bom-caráter, mais divertido, mais gostoso, mais... meu ! (E ninguém tasca, hem ?)
Parabéns, meu amor. Eu quero ver você a cada dia mais feliz.
SOU CRIANÇA COMO VOCÊ, O QUE VOCÊ VAI SER QUANDO VOCÊ CRESCER
Amanhã (na verdade hoje, mas como ainda não dormi e o sol ainda não nasceu, digo que é amanhã e pronto) é dia da criança. O que significa sair de tarde, morta de preguiça, pro meio do trânsito infernal, no meio do calor dantesco, pra ir comprar presentes. Ninguém me obriga, claro. Mas eu quero, vai entender.
Resolvo comprar presentes só mesmo pros pequenos. Quem quer que tenha cabelos grossos crescendo em locais estranhos – qualquer coisa abaixo do nariz se encaixa na categoria – não vai ganhar presente da titia-monstro, tá decidido. Mas é difícil contornar o fato de que pra mim, até os mais altos e cabeludos deles continuam sendo meus bebês. Suspirinhos. Quem mandou ser pobre...
Os brinquedos estão a cada dia mais estranhos. Meus favoritos são as bonecas com nomes de filha de manicure – Jhely, Kayllah – , cabelos mechados em dois ou três tons diferentes e caras de puta (e puta malévola: supermaquiadas e sem sorriso, os olhos tão-tão amendoados que são quase verticais, as caras amarradas feito modelos de passarela com fome de três dias) e os rádios-walkie-talkies com alto-falante, que têm escrito na embalagem aUto-falante, com U. Uhu. Imagino um slogan : “Analfabetizando criancinhas desde 2007”.
Indecisa entre uma roupinha de Cinderela e uma de bruxa (é o Halloween chegando, né ? Deve ser.) tento achar pelo telefone a avó da criança, o pai, a bisa, alguém pra me dizer qual a mais indicada, e não acho ninguém. Deixou por minha conta, não tem dúvida : um vestidinho preto nunca fez mal a ninguém, mesmo que tenha um discreto Jack O’Lantern com aquela sutil e discreta cor de abóbora ocupando quase todo o corpete. Perdoai-nos, Coco Chanel.
Cumprida a auto-imposta obrigação - os presentes -, é hora da diversão. No supermercado, compro bifinhos com saboresexóticos... pro cachorro da minha sobrinha. É que a minha gata não liga pra guloseimas, não curte brinquedos caros, não dá a mínima pra luxos. É o cúmulo da incompetência : não posso nem estragar e mimar meu próprio bicho. Tsc.
Compro sapatos no supermercado, e não é a primeira vez. São bonitinhos, básicos, baratos, confortáveis. E atestam de vez, para mim e para o mundo, que eu sou – apesar do irrelevante detalhe de não ter prole – uma proletária. E o pior é que nem dói.
Como até as proletárias merecem pequenos luxos, vou comer sushi com o gatim. Ou melhor, eu como o sushi, em quantidade suficiente pra deixar o Godzilla com indigestão : gatim come só uma porçãozinha de gyoza (não por acaso, a coisa menos crua no menu do japa : não bastava ser cozida, tinha que ser frita também) como tira-gosto pro primeiro tempo da cerveja.
De lá, vamos encontrar nosso casal de amigos mais queridos. Me ocorre que com as mudanças de vida, de par, de cidade, de trabalho, de interesses, sei lá do que mais, por que outros queridos passaram no último ano, estes dois são mais que os mais queridos : são praticamente os únicos que restaram. Vontadezinha de acreditar em Deus pra pedir que eles continuem por aqui, que sejam cada vez mais felizes, que a gente continue se vendo, tendo assunto e rindo muito, sempre. Os garçons, como sempre, começam a tirar as toalhas das mesas e a empilhar as cadeiras sobre elas antes das 2 da manhã. De um pré-feriado. E depois eu é que sou chata em chamar essa corrutela de Boiânia. B O O I Â Â Â N I A A A A !!!
Voltamos pra casa. Comentários fofos de pessoas queridas no blog. Pena que todas morem tão longe. Nina, lá do corredor, miafala, com total e absoluta perfeição, primeiro “mamãe” e, uns vinte minutos depois, “papai”. Juro. Não, eu não bebi nada. Nem fumei. Quer dizer, nada além de uns Holllywoods mentolados. Totally kosher. Eu como uma trufa diet deliciosa que minha cunhada fez pra mim. Gatim come um sanduíche e vai se deitar. E vai – por vontade própria - pro outro quarto, porque nariz entupido + cerveja = certeza de ronco e ele não quer me atrapalhar a dormir, esse menino lindo. Pra mim, nada de sono. Fico no computador, jogando bubbleshooter, jogando paciência spider (aquela que SEMPRE me diz que eu sou uma vencedora, hahaha), tentando arrumar sono pra não ficar babando à mesa no almoço amanhã. Perto das quatro, me ocorre que eu bem que podia ter comprado um presente pro gatim, já que ele às vezes é minha criança, ou pra mim, já que eu também sou. Dois minutos depois, uma joaninha em traje típico pousa no monitor, verde e amarela, passeia pra lá e pra cá, suas perninhas parecendo se mover em fast-motion sobre os pixels. Ela voeja de vez em quando, e depois fica meio envergonhada da própria ousadia, toda encabulada, tentando recompor a anágua fininha que escapa por baixo da saia dura e balonée. Sorrio. Olha aí meu presente do dia da criança. E o melhor é que foi surpresa. E grátis. Acho que agora vou nanar.
Se vocês já não andam lendo nem isto aqui (não adianta mentir, que eu tô vendo no sitemeter, viu ? Números menores a cada dia, sem falar nos comentários minguantes, sniff), provavelmente também não vão querer ir lá. Mas se forem, vão me ver, falando bobagem - quando eu invento de ser "politizada" ou séria (heh) dá nisso, é psionante - e vestidinha de tendinite girl. Eu sei, eu seeei, EU SEEEEI, os textos não estão nenhuma maravilha, mas pô, vai ver eu levo bebês muito a sério pra conseguir ter verve e leveza quando o assunto são eles. Ou então foi só o nervosismo de estréia, sei lá, me dêem um tempo que depois melhora. Ou não.
Eu sei, eu sei : isso é um hamster, não um rato, a pizza tá muito veggie e simplesinha e de qualquer forma o assunto já deu o que tinha que dar, mas eu não resisti. E além do mais, não tô tendo tempo, inspiração e nem saco de atualizar isso aqui nas últimas semanas. Mas daqui a dois dias meu trabalho de temp chega ao fim, eu recolho meus caraminguás e volto a ficar em casa, à toa, desesperada, sem fonte de renda e sem futuro... e provavelmente, cheia de assunto (leia-se "reclamações e choramingos") pra postar aqui. Isto é uma ameaça promessa. Ou seja, mais uma dívida pro meu caderninho. Aiai.
ou PILHAS ENERG...ÚMENO. CONTINUAM, CONTINUAM, CONTINUAM...
ou ainda... RANCOROSA, EEEEEUUU ???!!
Eu nunca entendi – até já senti, teeeempos atrás, mas nunca entendi de verdade – a atração que tantas mulheres têm por homens cafajestes, piranhudos, grossos, mimados, machões, ciumentos, egoístas e babacas, sejam eles parciais, combinados ou do tipo tudo-em-um. Mas o fato é que desde que me livrei do karma, há mais de dez anos, de vez em quando as “heranças” que o meu ex-exemplar da raça (a.k.a. "O Falecido", "O Monstro do Pântano", "O Namorado dos Infernos" ou ainda "A Encrenca") me deixou reaparecem, provavelmente só pra me esclarecer quanto ao real motivo dessa persistência dos malas na memória : é que os CaPiGroMiMaCiEgoBas são extremamente potentes. Não necessariamente no sentido que eles acreditam, ou gostariam de acreditar, mas de uma forma bem mais metafórica (no mau sentido) e pilhas-de-super-ultra-longa-duração da coisa. Explicando : é que um cafa completo é o único tipo de homem que você pode ficar anos sem ver ou lembrar que existe – nem ele de você, se Zeus for misericordioso –, de tal forma que você até chega a achar que perdoou todo o inferno que ele te fez passar (e não foi pouco), mas que de tempos em tempos, inesperadamente, através de um impedimento financeiro ou documental, um atraso de vida permanente, um cheque devolvido há décadas ou de uma doença psicossomática mais ou menos grave e mais ou menos recorrente, mostra que continua até hoje, e provavelmente pra sempre, sem descanso e sem pausa, sem recarga e sem vi*agra, fodendo você. Oooh, baby. Now that’s a ladykiller.
Desde o primeiro instante em que o primeiro par de malucos inventou o casamento, outras duas facínoras celeradas (se) inventaram as sogras. Daí pra frente, foi aquilo que todo mundo sabe : lutas internas, guerras eternas – frias ou quentes – venenos, piadas, sabotagens, vingancinhas, maldades grandes e pequenas, personagens literárias (também de grandezas variadas) e, volta e meia, programas de baixaria familiar em público, de blábláblá psicológico com 2 mm de profundidade ou de humor dedicados a elas, as grandes vilãs das relações familiares em todo o mundo. Como sempre se faz com classes odiadas, as coitadas foram classificadas e rotuladas em categorias, cada uma pior que a outra : a sogra-coral, a sogra-mandioca, a sogra-cerveja, a que deveria ter só dois dentes, a que precisa ser enterrada de bruços e várias outras de que nem me lembro agora. Felizmente, a minha – e a do gatim também, obviamente – não se encaixa em nenhuma delas. No caso da minha, o “felizmente” é em dose dupla, já que acabo de descobrir em que categoria, até então secreta e insuspeitada, ela se insere : a da sogra-Wolverine. Não, não é que as unhas dela sejam excessivamente longas e feitas de adamantium, nem que ela seja esquentadinha e dividida entre o bem e o mal, e principalmente, não é (mesmo !) que ela tenha costeletas tipo Elvis-Presley-circa-1975-depois-de-um-choque-elétrico-de-220-volts. Mas é que a véia é mutante num aspecto muito especial e invejável : ela tem fator de cura. Só isso pra explicar como em pouco mais de um mês ela foi de uma UTI - com aneurisma cerebral rompido - pra passeios a pé até a igreja perto de casa, praticamente sem seqüelas (a única que havia, uma pálpebra meio caída, que não era permanente e o médico disse que levaria 3 meses pra passar, já está praticamente sanada, e o pouco que resta dela é imperceptível). Os imensos hematomas pretos que o cateterismo deixou no alto da coxa e na barriga já estão cor de chá com leite, e pelo andar da carruagem, periga terem sumido completamente até a semana que vem. Os cinco quilos perdidos, em vez de deixá-la abatida, fizeram foi com que ela ficasse mais bonita. Os olhos verdes já estão brilhando como antes, a conversa flui com naturalidade e sem problemas de memória ou dicção, enfim, dona Naty tá praticamente 0 km de novo. Não sei se graças ao Deus dela, aos meus, ao não-deus do gatim, às boas vibrações de todas as pessoas boas e gratas que torceram por ela (ou às más, bocudas e sentadoras-em-cima-dos-próprios-e-imensos-rabos que torceram contra e, com seu karma torto, por isso mesmo acabaram ajudando na recuperação), a uma genética privilegiada ou única e exclusivamente à sorte, essa melodiosa, maravilhosa e feliz música do acaso, mas o fato é que ela tá ótima. Este post é pra agradecer a todas essas pessoas, deuses, orixás, sei-lás e capetas disfarçados de testemunhas de jeová que, querendo ou não, contribuíram pra que ela ficasse bem... e, claro, também pra dar um suspiro de alívio por ela ser o doce de pessoa que é. Porque perto dela, Bruce Willis não passa de um bebê chorão e frágil. E não tô falando da encarnação John McClanedo carequinha não, mas sim do seu lado David Dunn.