Eu ia usar este post para falar do filme que vi anteontem, baseado livremente, vagamente e levemente na peça de Tchekhov, mas que o über retardado encarregado da tradução chamou de algo bem Glória Magadan meets Nelson Rodrigues – in drag, as Suzana Flag - , "Desejos e Traições". Ia falar que gostei muito, e que apesar de um ou outro errinho de julgamento do diretor (ou será diretora ? Não me lembro agora e tô com preguiça de ir checar no imdb), de um ou outro escorregão dos atores, o simples fato de ver um filme recente em que o diálogo é a maior estrela me deixa feliz da vida. Cada um dos personagens é neurótico, fraco, instável, estragado ou simplesmente mal-inclinado, mas todos são inteligentes, rápidos, sabem se expressar e conseguem ser pungentes, cruéis, engraçados, brilhantes, maldosos ou o que quer que seja só com suas falas, sem precisar de um superclose para capturar o menor brilho da mais tênue lágrima ou a sugestão de uma covinha prenunciando um sorriso, a cada três minutos de "ação". Ao contrário da maioria das famílias das telonas e telinhas (e não falo só dos Simpsons), esta não é bidimensional : todos têm mais camadas que uma cebola das grandes, e apesar disso, em nenhum momento o filme descamba para ser a estória da vida de uma das irmãs - ou do pongó do irmão -, ou mesmo do fantasma do pai, mais dominante e perigoso que o do Hamlet e o do Luke Skywalker juntos, hohoho. O assunto principal, o astro, o destaque é a boa e velha dinâmica familiar, a mistura impossível de se dominar, a gororoba ácida e nutritiva de amor, ciúme, inveja, desconfiança, desejo de proteção, ressentimento, amizade e outros venenos que toda família normal distribui, aos baldes, a cada um de seus membros desde o primeiro dia, junto com o leite materno. Sim, toda essa esgrima verbal é bem coisa de teatro. Mas o filme é muito bom, e eu bem que gostaria de falar dele. Só que em vez de falar tudo isso e muito mais, eu vou apenas me desculpar pela pouca freqüência de posts e pela falta de assunto que vem me dominando ultimamente. É que outras três irmãs, caladinhas, chegaram de mansinho e tomaram posse da minha casa, da minha pessoa e da minha alma, e eu tenho passado cada hora de cada dia cuidando delas. Elas são o meu presente de aniversário antecipado, e seus nomes, tão gregos, já deixam bem claro o tipo de presente que são : Abulia, Apatia e Ataraxia. Visitas que na verdade eu preferia não ter e que nunca convidei, mas que vieram por conta própria e parecem não ter a menor pressa de ir embora, cada uma com um conjunto de malas, frasqueiras e caixas de chapéu maior que o das outras. Atender a seus pedidos e caprichos, adivinhar seus mínimos desejos é cansativo e consome os meus últimos e parcos átomos de energia, mas eu preciso cuidar delas. Afinal, como aprendi com meus pais e avós, na minha casa o hóspede é rei.
Às vezes basta uma notícia boa pra salvar uma semana bem mais ou menos. Tanti auguri, bellissima. Um bebê seu certamente ajuda a fazer deste mundo estranho um lugar bem melhor... e mais bonito !
Hoje minha avó fez 88 anos. Continua lúcida, linda (com uma pele linda e bronzeada e olhos azul-turquesa que nenhum dos 12 filhos herdou), enérgica e saudável, e tenho certeza de que se eu tivesse que apostar corrida com ela, perderia de lavada. Na foto, ela posa com minha mãe, minha irmã, meu sobrinho e minha sobrinha-neta. São cinco gerações. São mais de 35 netos, uns 17 bisnetos, 1 trineta. Tem sido uma vida longa, difícil e cheia de trabalho. Mas ela não é de reclamar, e quando não está trabalhando ou mandando em todo mundo, está sempre sorrindo. Mas que isso não engane ninguém : ela não é uma velhinha fofa. É uma mulher forte, reservada e geniosa, que ainda é capaz de surpreender a essa turma toda com reações inesperadas, chorando quando não se espera, rindo quando não se imaginava, chamando a atenção das filhas sessentonas como se elas tivessem menos de 20. Não sei se a recíproca é verdadeira, mas eu morro de orgulho da minha avó, e apesar de sermos de gerações e objetivos de vida extremamente diferentes, em muita coisa eu até a invejo. É bem verdade que eu nunca quis viver tanto e muito menos crescer e me multiplicar - principalmente com essa fúria toda - mas confesso que se em termos de resistência, ânimo, coragem e força eu conseguisse ser metade da mulher que ela sempre foi e ainda é, eu ficaria feliz. Te amo, vó.
Meu inferno astral atrasou uns dias, mas quando veio foi com uma fúria que eu nem conto. Só procês terem uma idéia, a coisa mais legal que aconteceu nos últimos dias foi uma carta de cobrança de taxas de dois meses de condomínio supostamente não pagas, do ano da graça de 2004 (isso mesmo, DOIS MIL E QUATRO), que eu sei que estão pagas, porque nos últimos 9 anos nunca deixei de pagar nenhuma e só atrasei – por pouquíssimos dias, e por confusão de datas - umas 3 ou 4, mas cujos comprovantes eu não consigo encontrar nessa zona que é a minha pobre casa. E pelo menos por enquanto, e tomara que continue sendo mesmo esta, senão eu não dou conta, a coisa mais desagradável foi uma demissãozinha básica, no dia 30 de abril - yeah, o mais cruel dos meses, o que me faz pensar em duas perguntas profundas e importantes :
1 - Será que T.S. Eliot era geminiano ?
e
2 - Será que virou moda agora eu passar o mês do meu aniversário desempregada ?!
O filme foi fraco, os sustos não assustaram, o terror não aterrorizou, os efeitos não fizeram efeito, enfim, foi uma completa perda de tempo. Mas como, no fundo da alma, eu e o gatim só temos 12 anos (cada um) de idade, pelo menos nos divertimos muito com alguns dos nomes nos créditos finais. Principalmente se lidos à moda goiana, como se fossem três palavras cada, com a segunda ligeiramente apocopada. Ainda assim, acho que foi pouca diversão pra uma hora e meia de filme - e 6 reais de locação. Pau nes' povo.