ATÉ QUE ENFIM, ATÉ QUE ENFIM...

...e a que horas o coelho sai da cartola, baby ?Fui no casamento de um tio muito muito querido no sábado e, em deferência à grana que gastei com a maquiagem e à roupinha de mulherzinha (manequim 44, o que, nas atuais circunstâncias, me deixou feliz como se fosse 38) que eu havia usado uma vez e mandado pro exílio nas portas superiores do guarda-roupa do quarto de vestir, deixei os óculos em casa e fui de lentes de contato. Fazia tempo que eu não usava, e elas se comportaram surpreendentemente bem. Tanto que resolvi usá-las por mais uns dias, aproveitando que a umidade do ar por aqui está naqueles raros dias em que é superior à do Atacama. No primeiro dia, foi tudo bem. No segundo, médio. No terceiro, talvez por causa do ar condicionado da minha salinha, talvez por causa do meu maravilhoso rímel-que-não-borra mas resseca um tiquinho as pálpebras, as lentes começaram a me incomodar e eu não agüentei mais. Ou pelo menos é o que eu venho me dizendo. Na verdade, acho que eu estava era sentindo falta de, naqueles momentos de ódio reprimido, eu poder olhar bem na cara do desafeto e ajeitar os óculos com o dedo médio bem esticado e o indicador e anular recolhidos...

 

Todo mundo com roupinha de-ver-deus, notei mais uma vez o que eu já sabia : meus sobrinhos são excepcionalmente lindos. Não, isso não é corujice. Sou a primeira a admitir que os que são mais bonitos hoje eram fofos, doces e queridos, mas bastante comuns, quando bebês ou criancinhas. Tudo bem que minhas irmãs são mais bonitas que eu, mas não chegam a chamar atenção na rua, e seus co-partícipes na confecção das crianças, se não são de dar medo na gente, também não chegam a ser confundidos com George Clooney ou del Toro,  então realmente não sei de onde veio tanta belezura. Fiquei até pensando, será evolução natural ? Será que se eu e o gatim tivéssemos tido criancinhas, elas teriam sido assim, lindas ? Se tivessem os olhos e sobrancelhas dele, meu cabelo – de quando eu tinha cabelo - a boca dos dois e o nariz... de ninguém, hahahaha, é até possível !

 

Na mesma festa, descobri que minha sobrinhinha-neta nasceu pra ser patricinha : além de linda e loira, de cabelos super-lisos, a bichinha adora batom e esmalte, e passou a festa toda encarando, perseguindo e até atacando – Pucca-style - dois garotos fofos, vestidos de paletó e gravata, feito dois minúsculos corretores da bolsa. Bom, alguém na família tinha que gostar disso.

 

 

Zeus abençoe quem inventou esse negócio de casamento-e-recepção fora de igreja, tudo num lugar só. Você chega, estaciona, se senta à mesa que mais lhe agradar, perto do ar condicionado, pode virar as costas pra uns e outros se quiser, assiste à cerimônia sentadinha o tempo todo e fica por ali mesmo, confortavelmente instalada, enquanto vêm até você os coquetéis, os salgadinhos, o jantar, a sobremesa e até os noivos, para os cumprimentos. Perfeito pra quem não é muito de missa, de ficar de pé ou de andar pra cima e pra baixo sobre saltos que parecem pernas de pau. A boa notícia é que ainda sei andar de saltos (muito, muito) altos. A ótima notícia é que quase nem foi preciso.

 

 

Quem diria que eu ainda viraria o tipo de mulher que (quase) chora em casamentos. Mas eu tinha motivos : era a segunda tentativa de um cara muito legal que se fodeu de verde e amarelo no primeiro casório. Desta vez o nó não estava sendo dado por companheirismo pós-pés na bunda de lado a lado, por medo da solidão ou por amizade, e sim por amor. A moça, muito mais jovem que o noivo e ainda marinheira de primeira viagem, tinha o sonho de se casar de branco, véu e grinalda, mas agüentou muito tranqüila e caladinha os anos todos que a ex levou pra largar o osso e assinar o divórcio. A mãe da noiva, uma coisiquinha fofa de metro e meio, esteve muito doente há uns meses e agora estava bem, feliz da vida ao ver a filha se casar comme il faut. Meu pai, um dos padrinhos, liiiindo de terno e de gravata vermelha, deu uma piscadinha pra Electra aqui ao passar por ela. Meu gatim, que odeia gravata e correlatos – não usou nem no nosso casamento -, encarou uma roupinha formal só porque eu disse que queria vê-lo vestido assim, e ficou super-hiper-mega lindo. Ou seja, que atire o primeiro kleenex empapado quem também não ficaria com um caroço de abacate na garganta. A sorte é que o pastor (a noiva é tão gente boa que eu a conhecia há anos e nunca soube que era crente. Sim, eu tenho preconceito, o blog é meu e eu digo o que eu quiser, thank you.) começou a falar logo e demorou a parar. E nada como um ministrante voraz engolildor de plurais e gerundista – mesmo ! – pra cortar qualquer onda sentimental que pudesse estragar minha maquiagem que levou uma hora pra ser feita. Meno male. Mas se Nietzsche estiver certo, Deus devia estar se revirando no túmulo com tanto capítulo e versículo do “gênis” e tantas coisas que “são imprescindível”. Mas bom mesmo foi quando ele mandou o casal se amar com abundância. Nem precisei olhar pro gatim pra saber que ele estava pensando o mesmo que eu, e era “Pô, amar com a bundância é pra casal gay ou muito muderno, seu pastor. Esses aí são um pouco mais conservadores, vão se amar é com a picância e a buc*tância mesmo, como deus manda...” .

 

Bobeiras (minhas) à parte, torço pra que sejam muito, muito felizes. Amém, Zizuis.



Escrito por Cynthia às 14h59
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THE MANY, MANY DEPARTED

Meu microondas deu tilt, meu chuveiro queimou, a caixa de descarga tá vazando, o box do banheiro do gatim descarrilou, o tanque de lavar faleceu, todas as minhas roupas pretas “limpas” e passadas estão cobertas de pêlo de gato – e eu só descobri isso ao chegar na agência -, minha geladeira está entupida de cervejas que só serão tomadas a partir de sexta-feira, o novo template deste boteco pro meu novo portal não ficou pronto até hoje, eles estrearam sem mim, meu cabelo está caindo tanto que provavelmente ainda acabo ficando completamente careca antes do meu pai, o Goiás perdeu de 3 a 0 pro Vila, não estou conseguindo manter a dieta e não sei se meu dinheiro vai até o quinto dia útil de março.  Mas pelo menos o Martin Scorsese finalmente ganhou um Oscar, o horário de verão acabou e o Flamengo bateu no vAsco. Como é que era mesmo aquele sambinha*? “Tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus...”

 

 

*Perguntei de quem era a música ao my own private google e ele me disse que era do Benito de Paula. Acho que até combina, né, afirmar que tudo está no lugar certo e exemplificar isto com um samba paulista, tocado ao piano por um cara com bigode de Fu-manchu. Hohoho.

 



Escrito por Cynthia às 07h36
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HAST MILCH ?

ou MOLLOKO, MEU !!

GENTE, ELE EXISTE !!!

TEM COISAS QUE SÓ A ANANOVA FAZ POR VOCÊ...



Escrito por Cynthia às 08h47
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EMPATE TÉCNICO

Coisa ruim é levar o bolo da sua massagista e ficar com as costas ainda travadas do stress da semana horrorosa.

 

Coisa boa é sair pra conversar com amigas antigas e queridas e de quem você estava na maior saudade (women only !).

 

Coisa ruim é nem poder beber com elas, e ter que passar a noite tomando refri diet.

 

Coisa boa é o papo ser divertido mesmo assim.

 

Coisa ruim é os garçons praticamente expulsarem vocês do boteco antes do assunto acabar.

 

Coisa boa é ter alguém pra te mandar embora à uma da manhã, sendo que você vai ter mesmo que acordar às 6 no dia seguinte.

 

Coisa ruim é não dormir de ansiedade e medo de não acordar na hora certa.

 

Coisa boa é chegar dez minutos adiantada na ruim-nião e quase ninguém estar lá ainda.

 

Coisa ruim é a ruim-nião ser exatamente sobre o que você suspeitava (horários, horários, e longa vida aos sábados desnecessários !!).

 

Coisa boa é você conseguir segurar sua bocona e não dizer o que realmente pensa sobre uma coisinha ou duas. Ou três. Enfim, coisa boa é você conseguir segurar sua bocona e não dizer absolutamente nada.

 

Coisa ruim é que, apesar da boa intenção e boa vontade do novo chefe, quem estava sentado mais perto dos murmúrios da galera percebeu que o puxa-saquismo, a mediocridade, as invejinhas, as grosseriazinhas, as picuinhas dos subordinados foram vencedoras e provavelmente vão todas continuar do mesmo jeito, se não piores, depois da ruim-nião, só que cerca de uma hora mais cedo todo dia.

 

Coisa boa é que o horário de verão acaba no sábado. E já vai tarde.



Escrito por Cynthia às 08h38
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SERVIÇO PÚBLICO

Bonitinho demais o celular AL 21 da Siemens. Bonitinho, pequenininho, bom pra levar na bolsa etc. E eu já andava mesmo meio implicada com o tamanho do meu outro celular. E nunca tinha tido tempo, paciência e know-how pra configurar o bicho pra navegar na internet, e só tinha tirado duas fotos com a tal camerazinha inclusa. Aí aparece o AL 21 piscando pra mim. Fofo. Pequetitinho. Sem câmera, mp3, Photoshop, DVD, tela de plasma de 42 polegadas, miniforno nem motor bicombustível, ou seja, um celular pra quem precisa de telefone móvel e só. E tava com um preço realmente ótimo, tipo 50% do habitual, no site das lojas americanas. Comprei, né ? Porém, ai, porém, as americanas, de quem eu sempre comprei online e com cujos serviços sempre fiquei satisfeita, recentemente se fundiram (e me fo... bom, cês entenderam) com aquele outro sitezinho que tem um apropriadíssimo nome subaquático, de quem só comprei três vezes na vida - e me arrependi nas três, porque ou meu dinheiro, paciência ou produto, quando não todos eles, sempre foram por água abaixo. Mas desta vez até que foi tudo relativamente bem : nada grave aconteceu, só um atraso de dois ou três dias. Eu já achando que ia ter que entregar meu telefone anterior pra pessoa a quem eu havia vendido o bichinho - quase de graça, na verdade - antes de ter o novo em mãos, mas acabou dando tudo certo. Quer dizer, tudo certo a menos que vocês achem, como eu, ingênua, achava, que para uma compra "dar certo" não basta ela chegar. Ela precisa chegar e funcionar bem, né ? Pois funciona. Sim, funciona bonitinho, perfeitamente, muito bem. Por algumas horas. Poucas, muito poucas. O probleminha é que a bateria, que segundo a descrição do produto deveria durar quatro dias em stand-by ou 4 horas em conversação, na verdade mal dura 24 horas. Exatamente, UM mísero dia. E isso só se o dia em questão for um feriadão em que você não liga pra ninguém e ninguém, graças a Zeus, Baco, Momo ou algum outro gordo festeiro desses, ninguém liga pra você. Pensei cá comigo, será que vale a pena ir atrás de lojas, fabricantes e outros bichos, tendo eu lido há poucos dias que este é um dos segmentos com maior número de queixas registradas no Procon e os maiores atrasos nos consertos, que normalmente também não consertam nada ? Até poderia ser, se fosse uma característica não do modelo, mas do meu aparelho. Será que é só o meu aparelho (sim, eu tenho dessas sortes) ? Não, o da minha sobrinhazinha é igual e também tem o mesmo defeito. Não, a super-cérebro aqui não perguntou pra ela ANTES de comprar se o celular era legal. Então eu assumo a culpa. Fui superficial, fútil, imprudente, burra, crédula e pateta. E vou ter que ficar pelo menos uns meses, em penitência auto-imposta, com essa bomba bonitinha antes de comprar outro celular, provavelmente de outra marca e em outra loja, pra substituí-lo. Mas pelo menos tenho o gostinho de avisar a quem me ler, e de pedir que espalhem por onde puderem, que o lindo, fofo e engraçadinho AL 21 da Siemens, ou mais especificamente sua bateria – que no es lo mismo, pero es igual - é uma bela bosta, e que quem comprar certamente vai se arrepender.



Escrito por Cynthia às 09h11
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DIÁLOGOS BOBOS COM TROCADALHOS IMBECIS - ANIMAL PLANET

- ...“Picanha suína” ? Nunca ouvi falar. Onde fica isso no porco ?

- o gatim disse que é aqui assim, ó.

- No pneuzinho ?

- É, mais ou menos.

- E o filé mignon, onde fica na vaca ?

- Olha, normalmente é perto da coluna vertebral, mas este aqui tá tão gostoso, tão macio, tão maravilhoso, apimentado e sensacional que nem pode ser de vaca. Um filé assim só pode ser localizado no benício.

- No quê ?

- No Benício... del Toro !!

 


  

- ...de onde era mesmo o Guimarães Rosa ? Tô aqui tentando me lembrar faz meia hora e nada.

- Ih, também não sei. Curvelo ?

- Não. Era um nome comprido.

- Não é Três Corações, não ?

- Não, isso é o Pelé.

- É mesmo... mas engraçado, eu continuo com esse vibe “tricordiano” na cabeça.

- Ah, é isso ! Tem a ver com coração mesmo. É Cordisburgo !!

- Cordisburgo ?

- É !

- Cordisburgo quando foge ?

 


- Miau.

- Miaaau...

- Miauau !

- Miamiau, miauauau...

- Miauau, miumiau, miii !

- Miaauuauim...

- Que é isso, amore, surtou ? Tá falando siamês com a Nina ?

- Não, tamos aqui num desafio. Eu e a Gatativa do Assaré.

  


 

- Acordada ainda ?

- Mas claro, né ? Com esse barulho infernal lá embaixo.

- É mesmo. O que será... ?

- Pelo som, acho que uma discussão musical-ontológica-cum-vale-tudo entre a banda Gato Fu e o fantasma do filósofo Ortega y Basset.



Escrito por Cynthia às 09h20
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ISORDIL

Só tem uma coisa que eu odeio mais que gente burra. É gente burra e arrogante. Aquela típica anta que se acha o “i” do mississippi, a última bolinha de beluga do pote, o gás da última Veuve Clicquot do balde de gelo, o extra-ribbed da camisinha, o supra-sumo da inteligência, criatividade, discernimento e gostosura tudo num só corpinho vestido no que ela acredita ser uma roupitcha sexy E poderosa. Tem coisa pior ? Claro que tem. A burra, arrogante e metida a fina. Porque, sinceramente, se a figura tiver que ser burra e metida a esperta, que pelo menos seja logo grossa direito, pra gente saber de cara com quem tá lidando e, mais importante, pra dar espaço pra que a conversa seja tocada às claras, com ofensas e paus-na-mesa de lado a lado. Mas quando a poota escrota te ofende diversas vezes com “jeitinho”, com a agulha de veneno mal-disfarçada e enrolada em camadas ralas de algodão-doce rosa-caceta, com uma vozinha de bebê retardado com caganeira, ao mesmo tempo se “desculpando” com a candura e honestidade de um deputado do pefelê – que aliás mudou de nome, agora é pedê, né ? Nome perfeito, principalmente se pronunciado e entendido à francesa – aí a coisa piora bastante. Porque se você responde à altura da intenção, você é uma grossa estúpida e insensível que ofendeu a coitadinha que só estava querendo ajudar. Ela é capaz até de chorar, não duvide. Se você evita o confronto direto, mas, incapaz de engolir esse sapo cururu sem ao menos devolver uma rãzinha saltadora, e responde com ironia e sarcasmo, a imbecil nem vai perceber o que você está fazendo, ou entender que você sabe muito bem o que ela fez nos verões passado, atrasado e retrasado, e como, e com quem, e talvez até por quanto. Aí só te resta sair, fumar um cigarro, xingar a vaca magrela em pensamento oitocentas vezes, continuar indignada, voltar e, pra não ter um infarto, fazer um post. Que além de tudo acaba ficando comprido demais, bobo demais e muito menos legal que o do Sérgio Faria, que disse tudo isso com muito menos palavras.  



Escrito por Cynthia às 09h10
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I'VE GOT BETTE DAVIS EYES

ou THE JOYS OF MULHERZICE©

 

Aaaai, mas eu tô tão feliz... depois de vários pedidos a amigos próximos que sempre acabavam se esquecendo, a parentes viajantes que também se esqueciam – ou nem tentavam – e depois diziam que não tinham encontrado, depois de muito xingar a Amazon por só entregar CDs e livros e nada mais aqui no 3º mundo, finalmente, finalmente, graças a uma amiga da minha irmã, que tem família e endereço nos esteites e muita boa-vontade pra com quem nem conhece, consegui comprar (em dezembro) e receber (anteontem) o meu rímel-que-parece-de-plástico-e-não-borra. Pra melhorar ainda mais, comprei também o delineador da mesma marca e com o mesmo diferencial, e também uma caixinha de Jelly Bellies diet e um sound soother – aparelhinho que faz barulho de chuva, floresta tropical, ondas, trovões distantes, cachoeira e um outro lá cujo nome eu esqueci, mas que tem grilinhos e passarinhos e tal, muito bucólico. O aparelho serve pra mascarar barulhos externos e internos (gatas carentes e maridos roncantes), e pelo que eu experimentei até agora, é perfeito pra gente se desligar de ruídos enlouquecedores, ficar calminha e dormir feliz. Talvez  tenha sido por causa dele que a dor de cabeça que eu carreguei de terça a sábado da semana passada sumiu no domingo, quando eu finalmente acordei bem dormida, descansada e... com os olhos perfeitamente maquiados ! Sim, todas essas coisas superficiais, supérfluas e tolinhas me deixaram muito, muito feliz. E sim, hoje o primeiro que falar em “futilidade feminina” e “consumismo desenfreado” perto de mim leva uma tamancada na cabeça.



Escrito por Cynthia às 07h58
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RINCH

O resto do mundo já sabia, desde que os primeiros animais foram domesticados, e os primeiros campos cultivados, que o ideal era fazer um sistema rotativo com eles, pra que pudessem se recuperar de uma safra ou de um trabalho particularmente difícil sem necessariamente parar de trabalhar : era só ir alternando, passando um cavalo da moenda pro arado, ou trocando o cultivo de uma gleba de trigo pra feijão, por exemplo. Assim, os bichos – e o solo – estavam sempre frescos, dispostos, sem a exaustão ou as deficiências minerais, musculares, vitamínicas ou sei lá mais o que, que fatalmente seriam causadas por um tipo específico de exploração continuada. Mas ainda tem gente que, em pleno século XXI, com supostamente muito mais know-how e experiência, e mesmo tendo alqueires e mais alqueires de terras, um plantel lotado ou um monte de incautas trabalhando na criação, insiste em pegar um pobre cavalo, pedaço de chão ou redatora e, tendo ele(a) demonstrado capacidade, disposição e bons resultados para um determinado tipo de trabalho (ou cliente) chato e/ou difícil, amarrar o animal, fincar a espora, chegar o chicote e fazer o (a) infeliz trabalhar sem trégua e sem descanso sempre no mesmo tipo de coisa, sempre pro mesmo filho da puta burro, aparício, jurandir e chato, esperando que a pobre besta esteja, ainda assim, sempre pronta a cuspir uma dúzia ou duas de idéias, sem prazo e sem liberdade de criação. Cazzo. Pelo menos na idade média a gente podia surtar e sair distribuindo coices e mordidas em camponeses, vassalos e suseranos em geral. Claro, a punição para semelhante surto seria provavelmente uma viagem ao fundo do barril de cola ou a escalação para protagonista no elenco do caldeirão de goulash relinchante na taberna mais próxima. Mas pelo menos, que eu saiba, além de sugar até a última gota de energia vital do chão ou do animal, ninguém ainda somava insulto à injúria, tentando ensinar o cavalo a trotar ou o solo a “agregar valor” ao trigo e a produzir mais nitrogênio a partir de merda. E ainda chamavam aquilo lá de idade das trevas. Sei.



Escrito por Cynthia às 15h17
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GÊNESIS, 1:27

ou "MACHO E FÊMEA OS CRIOU".

 

- Eita nóis, quase que eu entro no pára-choque desse cara... ainda bem que eu tô calminha hoje. Nem vou chamar de feladaputa com charreteiro, vou só dizer que pô, se vai virar, vê se dá sinal de luz, meu rei.

- Bom, mas ó, acho que o às no volante ali né “rei” não...

- Ah, é rainha, é ?

- Olha, pra falar a verdade, tá mais é pra “réia”...

 

                                               

 

- O peão ? Meu pai demitiu. Descobriu que ele é uma porcaria dum ladrão. Um ladrãozinho, um ladrículo. Um ladrilho !

- Hahahaha... E a mulher dele, também rouba ?

- Vishmaria ! Mais do que ele.

- Então ela é o quê ?

- Sei lá... uma latrina ?!

 

                                              

 

- Tá bom, meu bem, cê é agnóstico, tudo bem, mas não precisa ficar declarando isso o tempo todo.

- Por que não ?

- Porque isso arma as pessoas contra a gente, vão logo te rotular, e aí vai acabar sobrando até pra mim.

- Como assim ?

- É que eu sou sua mulher, aí vão dizer que você é um tipinhateu e eu... uma tipinhatoa !



Escrito por Cynthia às 14h36
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PORTRAIT OF A LADY

ou DONA LOURDES

 

 

Ela já era copeira nesta agência da primeira vez que eu trabalhei aqui, em 1984/88 – yeah, eu sou véia – e continua até hoje. Naquela época, eu tinha 18/22 anos e ela devia ter a idade que eu tenho agora, ou até menos. Nos quase vinte anos que passei sem vê-la, ela ganhou alguns quilos, uns cabelos brancos, umas poucas rugas e os dentes ficaram um pouco mais amarelados, mas na verdade não mudou tanto assim. Quem mudou fui eu, que pesava 48 kg, usava lentes de contato em vez de óculos, trabalhava de meia fina, salto alto e saia lápis, fumava feito uma chaminé desgovernada e era, aiai, tão boazinha. Eu voltei a trabalhar aqui há seis meses, e quando ela me viu, depois de finalmente me reconhecer, disse um surpreso “Nossa, você cresceu !”, hahaha... Ela não chegou a dizer que eu havia crescido era pros lados, mas isso nem precisava.

Ela sempre foi, e ainda é, considerada estranha e até chata por boa parte do povo que trabalha aqui. Trabalha direitinho, faz um café perfeito, cozinha maravilhosamente bem, de vez em quando faz bolos e pães de queijo deliciosos pro lanche, e é ótima no que faz, mas não é expansiva, não é simpática profissional, e apesar de não ser exatamente grossa, parece geneticamente incapaz de puxar saco de quem quer que seja, de mentir pra agradar ou ser falsa por qualquer razão.  Ela é o que é, está o que está e pronto. Quando está chateada, você percebe de longe. Num dia pode puxar papo, te contar coisas, falar muito, rir e ser gentil. No outro, de teto baixo, não te dá nem bom-dia. Eu nem ligo. Pra falar a verdade, acho ótimo.

Eu sei que é meio narcisista dizer que ela é extremamente parecida comigo nestes aspectos, pra logo depois dizer que a adoro. Mas adoro. Eu sei lidar muito bem com gente verdadeira. Quando ela me diz que escondeu uns pães de queijo “desses esganados aí” (eu sempre vou lanchar mais tarde, depois que todo mundo já comeu, já fofocou e já saiu da copa) e me entrega um pratinho, ou quando, como agora há pouco, me diz que eu tô “ficando magrinha”, eu sei que ela gosta um pouquinho de mim de verdade, e que realmente acha que eu estou emagrecendo. E isso, pra mim, vale mais do que todos os elogios que patrão, atendimentos e clientes fazem aos meus textos antes de começar a retalhá-los ou pedir mais opções, que todos os rapapés que um ou outro coleguinha me fazem logo antes de eu virar as costas pra poderem começar a falar mal de mim, que todas as delicadezas excessivas e vazias que o mundo em geral parece considerar obrigação entre civilizados. Por mim, todo mundo era igualzinho à Dona Lourdes. Mas eu é que não vou dizer isso pra ela. Nós duas não somos de muito nhenhenhém, né ? E, além disso, eu tenho certeza de que ela já sabe.



Escrito por Cynthia às 08h17
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