O bom de ter TV a cabo é que, se a gente quiser, consegue ficar todo o período eleitoral sem ver um único maluco falando merda no horário “nobre”. Eu quis. Ser alienada ou desinteressada não é problema pra mim, ninguém tem nada com isso e, sinceramente, acho que já sei tudo o que preciso saber sobre os candidatos em geral, sendo que de alguns sei até mais do que gostaria. Então tenho evitado ao máximo me expor aos maus eflúvios emitidos por essa turma. Como a bateria do meu mp3 leva três horas para carregar e às vezes eu preciso ficar sem ele, o que nem sempre dá pra evitar são os jinglezinhos irritantes, irradiados no último volume por carros de som que passam na rua e invadem nossas casas e locais de trabalho, os foguetes fora de hora que assustam animais domésticos e acordam bebês, os comícios histéricos que atrapalham o trânsito e a paciência da gente e que pipocam a qualquer hora e local, feito verrugas viróticas, e os pobres coitados que distribuem adesivos, santinhos e balançam bandeiras coloridas em cada esquina, com uma cara de tédio que eu nunca consegui alcançar (nem mesmo quando fazia filosofia 1 pela 2ª vez, com um professor ex-padre, de voz monocórdia e sotaque espanhol às 7 da manhã de segunda-feira, láááá no campus). E como se o trânsito já não fosse ruim o suficiente, ainda somos obrigados a ver os candidatos e suas caras feias e/ou ridículas pra todo lado, freqüentemente associadas a nomes que ficam a meio caminho entre nos provocar riso contido ou choro condoído. Os campeões até agora no quesito nomes esquisitos são o Na*Ç*oitan e o pastor Sime*Y*zon. Os campeões da feiúra são tantos que não consigo me lembrar de todos. Mas pelo menos já me acostumei aos novos modelos de adesivos pra carros, que além do nome do infeliz, agora também trazem sua foto, em tamanho extra-grande, na lateral do carro de qualquer militante, parente ou mercenário que se dispuser a um vexame desses. E que beleza de candidatos, caríssimos. São peruas velhuscas com o cabelo duro de laquê e a cara coberta de pancake, massa corrida e bactérias botulínicas, coroas carecas com cara de bobos na melhor das hipóteses - e de psicopatas na pior -, mocinhas loiras-de-chapinha com cara de burras que obviamente esperam ser eleitas por causa de sua juventude e beleza (questionáveis, inclusive, mas que sei eu), moleques que normalmente são filhos ou netos de outros políticos, numa prova de que as piores doenças são mesmo hereditárias, pastores em profusão, coitados que se acham simpáticos e juram que, por conhecer muita gente, já estão praticamente eleitos, enfim, é um desfile que beira o felliniano, resvala no lynchiano mas acaba descambando mesmo para o freak show ratiniano-raulgiliano de sempre, mas que assusta quem olha distraído pro carro do lado e dá de cara com aquele cabeção de sorriso alvar e olhos vidrados. A minha vingança é que, no calor infernal que anda fazendo por aqui, e como nem todo carro desses tem ar condicionado, muitas vezes os passageiros abrem o vidro traseiro, levando junto boa parte da testa do futuro mensalonista/vampiro/anão orçamentário (alguém ainda se lembra deles ? eu me lembro) e fazendo com que, pelo menos por alguns minutos, eles mostrem ao mundo sua verdadeira face de picaretas anencefálicos. Deve ser por isso que praticamente todos são contra o aborto.
Ontem, fora de época, fora de hora (justo às 18:45) e fora do padrão, choveu aqui na terrinha. Aliás, “choveu” é eufemismo. Foi um puta dilúvio, um temporal daqueles que derrubam árvores, alagam avenidas, arrancam telhados e molham distribuidores de carros velhos, completinho com relâmpagos, ventos que fazem as rajadas de água virem de lado em vez de na vertical e a velocidade mais veloz dos limpadores de pára-brisa parecer insuficiente pra tanta água. Eu, como adoro mesmo uma chuva e estava sequinha e protegida dentro do carro, relaxei e aproveitei. Acendi a luz interna e me dediquei a adiantar a leitura do meu livrim, que sempre levo no carro pra não me estressar nos longos sinais fechados e nos engarrafamentos cada vez mais freqüentes por aqui, mas que tá tão divertido que eu ando carregando o bicho pra todo lado. Apesar da surpreendente educação dos motoristas nesse momento em particular (não se ouvia uma buzina, apesar da velocidade filme-iraniano das filas de carros. O único som era o gemidinho ritmado do motor dos limpadores tentando tirar toda aquela água do pára-brisa – fora os trovões, claro) e de eu adorar som da chuva, aproveitei a escuridão e a falta de polícia visível e liguei o mp3 com um volume caprichado nos fones de ouvido. E assim o que poderia ser uma experiência extremamente irritante foi até legal. Felizmente, porque acabei levando mais de uma hora num trajeto que não costuma consumir mais de 20 minutos. Mas o mais interessante foi que, a certa altura, num trecho em que TODOS os semáforos e luzes da rua e prédios em torno de mim estavam apagados, enquanto no meu livro (Good Omens, do Neil Gaiman e Terry Pratchett, engraçadíssimo, eu rrrecomeindo) o fim do mundo está em curso, com os 4 motoqueiros do apocalipse e o adido infernal na Terra chegando a uma estrada noturna escuríssima e engarrafadíssima que deve levá-los ao anticristo, com uma tempestade de raios caindo sobre os morituri, meu “radim” começa a tocar nada mais, nada menos que “Sympathy for the Devil”, hahaha... talvez por coincidência, nesse momento o nó principal se desfez em algum lugar mais à frente e o trânsito começou a fluir. Três minutos depois eu estava em casa. Ainda bem. Se demorasse mais um pouco acho que o bichinho ia começar a tocar só músicas do Queen*, e eu ia ter que comprar outro...
* No livro, qualquer fita deixada no carro do demônio Crowley por mais de quinze dias se transforma numa fita do Queen. É, o livro é de 1990 : nele não se fala em CDs, os computadores ainda não chegam a ser onipresentes e os celulares ainda estavam nos primeiros estágios. É datado, sim. É meio infantil. E é excelente.
Se ela soubesse que eu passei a noite inteira com uma dor de cabeça de rachar, do tipo que parece que tem tanta pressão dentro do seu crânio que seu globo ocular vai pular, com um “plop” bem alto, lá do outro lado da sala; que acordei com o estômago virado do avesso, que tive ânsias de vômito tsunâmicas e que precisei ser muito macha até pra me levantar da cama, que dirá pra vir trabalhar, ela não teria entrado na minha minúscula salinha hermeticamente fechada com um perfume (?) desses. Nem corrido o enorme risco quase-quase-quase mesmo, por um micro-nano-triz, de sair daqui vestida com o meu café da manhã.
Comprei uns chazinhos tão cheirosos, gostosos e maravilhosos – tem de manga com maracujá, de limão com gengibre, de laranja com carambola e de amora selvagem, entre outros, cada um melhor e mais delicioso que o outro – que tem hora que dá vontade de levar o nome deles a sério e, em vez de deixar na água fervente pra depois beber, enrolar as ervinhas sequinhas e deschavadinhas num papelzinho... e fumar até queimar os dedos, hahaha. De quebra, ainda fui no site e descobri que chá serve pra matar pulgas em tapetes e no pêlo de bichinhos de estimação, tratar terçóis, conjuntivite, infecção de garganta, feridas de amamentação e pra várias outras coisasque eu nunca imaginei, fiquei chá-pada. Infelizmente, como se vê, eles não servem pra melhorar a qualidade dos meus trocadalhos.
A grande vantagem de comprar CDs numa loja feia e suja, cheia de gente feia, suja, malcheirosa, mal-encarada e de mau gosto é que, enquanto eles pagam mais de 30 paus por um CDzinho da Sandiléa e seu irmão Durvalzim, eu pago 15,99 numa Aretha Franklin e 12,99 num Miles Davis ou num Ednardo (que tá sumido faz uns 20 anos, mas eu ainda adoro). E ainda acho um DVD do Truffaut perdido no meio de toneladas de Velosos e Furiozes, Máferas Mortíquinas XVI e outras pérolas zoollywoodianas...
Tudo bem, é engajado, é panfletário, é um libelo-contra-a-união-européia, mas é de um nonsense inteligente, bem feito e às vezes engraçado, portanto assumo que gostei, sim, do filme do Costa-Gavras. Mas o que eu mais gostei mesmo foi, numa cena em que o protagonista, feliz, beija a mulher com ênfase e diz que ela o deixa louco, do fato de que os filhos adolescentes apenas pigarreiam pra avisar que estão ali e sorriem, ao contrário do jeito americano e imbecil americano-que-vive-nos-estados-que-votaram-no Bushde ser, que claaaaaro, os brasileiros copiam achando lindo e chique demais, que é fazer cara de nojo e pavor, tampar os olhos e ouvidos e sair correndo, histéricos, ante a insuportável constatação de que seus pais são seres adultos, sexuais, e que ainda por cima, oh, horror dos horrores, se amam e têm desejo um pelo outro mesmo depois de uma década ou mais juntos. Puxa, que coisa horrível isso, não ? De traumatizar uma pessoa pelo resto da vida. E depois não entendem por que é que eles têm essa mania de querer jogar bomba nos outros...
O bom de saber outra língua é que você pode comprar por 25 reais um livro que, (mal) traduzido e com uma encadernação pouquinha coisa melhor, custaria 75. O fato de você conseguir ler exatamente o que o autor quis dizer, sem tropeçar nas pretensões, ignorâncias e falhas do tradutor – sem falar nos erros de revisão, cada vez mais abundantes nos livros brasileiros - até valeria os 50 paus restantes. Mas isso ninguém precisa saber.
Eu vivia implicando com pessoas que, provavelmente sem saber o exato significado da palavra “medíocre” caíam em contradições como dizer que tal coisa ou pessoa era “medíocre demais”. Pois eu vi com meus próprios e míopes olhinhos que isso é possível, sim. Vi em DVD um filme pelo qual a bonitinha com nome que parece de vinho concorreu ao Oscar de novo no ano passado – desta vez, não por ter se enfeiado, mas por ter mostrado que as bonitas também sofrem discriminação – e fiquei fascinada com a quantidade de clichês, macetes de roteiro, “viradas” previsíveis desde os primeiros fotogramas, momentos edificantes recobertos de déjà vu e a absoluta falta de empatia que ele provoca. Nem mesmo contando com um tema que me seria normalmente caro e com as maravilhosas Frances McDormand e Sissy Spacek - em papéis que eram pouco mais que pontas – o troço conseguiu me fazer sentir mais do que sono. Definitivamente, descobri que é possível, sim, ser excessivamente mediano, incomensuravelmente mais ou menos, abissalmente regular. Bom, talvez não precisasse perder duas horas da minha vida pra descobrir isso, mas alguma justificativa eu preciso ter.
Eu só queria saber por que é que eu gasto tanto dinheiro com bobagens, coisinhas de pouco valor e menor utilidade, e nunca consigo economizar para coisas realmente úteis e agradáveis como viagens, equipamentos, um apê. Mas pra descobrir isso talvez eu precisasse de terapia, e aí é que meu dinheiro não ia dar mesmo nem pras coisinhas de pouco valor e menor utilidade, quanto mais pras viagens, equipamentos e o apê. Acho que vou ter que descobrir e resolver (mais) essa sozinha, mesmo. A menos que vocês tenham algum palpite...
Ah, peraê. Eu não sou de me interessar pela vida de celebridades nem acompanhar fofocas sobre elas (só fui ficar sabendo que a tal joaninha-sem-perna ex do Paul MacCartney era puta profissa meeeses depois do divórcio, e por acaso), mas como ainda habito o planeta, claro que eu fiquei sabendo – mas não vi, porque o youtube tirou do ar rapidinho e porque, sinceramente, acho isso melhor de fazer do que de olhar outros fazendo - que a menina bocuda aquela que ia se casar com o dentuço ex-craque de futiba foi filmada brincando de Tubarão com o atual namorado numa praia nas oropa. Quer dizer, o tubarão era ele, ela era a comid... hum, hã, a devorada. Mas eu dizia. Não sou de perder meu tempo com isso, mas agora eu li em algum lugar que empresas estão rescindindo contratos de publicidade que tinham com ela e que o banco onde o garoto-jaws trabalha tá pensando em demiti-lo. Aí tive que dar meu desimportantíssimo pitaco. Porque peraí, os dois não são adultos, livres e desimpedidos, estão numa relação afetiva (e óbvio, bastante sexualizada) um com o outro e, ao que se saiba, não roubaram, traíram, machucaram nem enganaram ninguém ? O máximo de que se pode acusar os dois é de absoluta falta de pudor e vergonha na cara, mas num país que bota apresentadoras de programa infantil com o rabo de fora às 8 da manhã, isso não é muita hipocrisia, não ? E uma imprensa que chama de “namoradas” as amantes de políticos velhos e casados e relativiza escândalos do tipo peculato e prevaricação tem moral pra falar alguma coisa ?E pode posar de chocada uma sociedade que ensina às filhas, desde muito novinhas, que o bom é ser gostosa, popozuda, fazer os homens babarem e sair pelada na revista, e estudar é coisa pra trouxa, otária ou baranga ? E principalmente, esses anunciantes tão horrorizados não são mais ou menos os mesmos que correm pra contratar qualquer um que se notabilize por chamar a atenção, seja soltando foguete em estádio lotado, oferecendo um BJ pago na rua a um astro de Hollywood ou, pra ficar na órbita da garota-enxaqueca, indo de oferecida a um casamento para o qual não foi convidada ? Isso pra mim é igualzinho aos síndicos de prédio que roubam o condomínio mas se fingem de revoltados com a corrupção no governo, ou seja, é muito mais inveja do tamanho e qualidade do mal-feito dos outros do que qualquer outra coisa. O que eu acho que a menina fez de mais errado até agora, pra falar a verdade, foi, depois da merda feita, ameaçar meio mundo com processos na justiça. Se eu fosse ela não faria isso, não. Bom, claro que se eu fosse ela, pra começar, não teria sido pega em flagrante, porque não sou de fazer esse tipo de coisa em locais que envolvam público (ugh) água salgada (ai) e muito menos areia (uiuiui). Mas digamos que fosse. Digamos que eu fosse jovem, linda, barraqueira e sem praticamente nenhum superego, e que meus surtos de tesão fossem sempre do tipo que não agüenta esperar nem chegar até o quarto do hotel ou, sei lá, até o elevador, o carro, ou pelo menos a uma daquelas barraquinhas fechadas que tem em certas praias da Europa. Se eu fosse assim, e fizesse algo assim, e um paparazzo nojentinho me pegasse no flagra, e zilhões de punheteiros de todas as idades no país inteiro saíssem procurando o tal vídeo na internet, enquanto zilhões de mulheres – e homens - que talvez já tenham protagonizado (ou fantasiado com) uma cena dessas se sentassem em cima do rabo, bancassem os santos e me chamassem de puta pra baixo por estar dando o que é meu a quem eu quis na hora que me deu na telha, eu iria lá processar “todo mundo” ? Dar chilique, fazer a coisa render ainda mais, fazer escândalo ? Eu não. Ia era bancar outra doidinha, a Piovani, que é muito dona do seu nariz, faz o que quer como bem entende e não dá satisfa a ninguém. Melhor ainda, acho que ia fazer era que nem a bichinha da piada - aquela que foi pega pelo guarda transando embaixo da ponte - com as devidas adaptações, claro :
- Aiaiai. Tira, g(T)ato. Seguinte seu guarda : o mar é seu ?
E O MP3 CANTA : PSYCHO KILLER, QU'EST-CE QUE C'EST ?
O que será que tem na cabeça um sujeito que, em pleno engarrafamento da hora do rush, depois de esperar por cinco longos segundos, resolve que o melhor a fazer é enfiar a mão na buzina e esquecê-la por lá ? Será que ele acha que todo mundo tá lá parado por pura distração ?Será que ele realmente acredita que tudo o que centenas de carros precisam pra se mover é de um gênio da raça que some o insulto à injúria, o calor e o desconforto ao barulho mais chato do mundo ? Ou será que isso é uma doença, talvez a mesma que acomete os energúmenos que crêem firmemente que, se eles socarem repetidamente e com força suficiente o botão do elevador, ele vai magicamente se materializar no andar pretendido, ou pelo menos se reprogramar sozinho para funcionar no triplo da velocidade ? Será que quem age assim é o mesmo tipo de pessoa que ao ligar por engano no seu telefone – normalmente num domingo bem cedo, na hora do almoço ou quando você está bem no meio de um agradável torneio de nude jiu-jitsu com seu companheiro de cama – continua insistindo que “esse número aí é o da Cleidinha sim, foi ela mesma quem me deu” mesmo depois que você já falou três vezes que a Cleidinha não mora aí, você nunca a viu mais gorda e que, pelamor, ele desligue porque você também tá querendo dar ? E por que será que esse tipo de atitude não é passível de pena de morte em nenhum lugar do universo, ou pelo menos não costuma ser aceito como atenuante muito-muito atenuante no caso de alguma hipotética gordinha neurótica com enxaqueca feroz e estômago instável há uma semana perder o autocontrole e enfiar um canivete de mola cinqüenta e oito vezes no pescoço do infeliz ? Eu acho que devia. Mas bom, sei lá, isso é só uma opinião. Totalmente desinteressada.
Aí, depois de anos sem fazer nada disso e de meses ameaçando começar e não cumprindo por falta de ânimo, grana, tempo, grana, estacionamento ou grana, finalmente comecei a fazer exercício. Desisti da hidroginástica, ou hidrobike (que imaginei que detestaria menos do que outras modalidades, já que não iria me sentir suar, estando dentro d’água) porque nunca tem lugar pra estacionar na porta da academia de natação/hidro etc. que eu queria freqüentar. E sim, fica perto, pertíssimo da agência, e se eu tivesse vergonha na cara dava perfeitamente bem pra ir a pé, mas depois que eu fui assaltada com revólver na cara há dois anos, venho ficando progressivamente mais medrosa e covarde a cada dia que passa. Fora isso tem a preguiça, que além de grande, é enorme. E ah, peraê, se eu quisesse andar, ia fazer esteira ou caminhada logo, né não ? Bão, aí uma colega falou de uma outra academia que tem aqui perto e ela tá fazendo aula lá e putz, se ela tem sessentinha e dá conta, é bem possível que minha frágil e flácida pessoa vinte anos mais nova que isso também consiga, né ? Além do mais, gostei dos principais pontos de venda do boteco : primeiro, a academia é só pra mulher, eliminando reduzindo drasticamente a possibilidade de paqueras, o que diminui significativamente o contingente de babaquinhas caçadoras de emoções e monopolizadoras de aparelhos; não havendo homens, não há desfile de roupitchas, nem de peruas maquiadíssimas, e felizmente também de nenhuma sílfide escultural, pra passar raiva e inveja em nosotras, las viejitas fofas; não sei se por causa do corpo discente predominantemente rechonchudo, não há espelhos a não ser no banheiro, o que nos livra de descobrir, numa olhadela casual, que aquela bunda de hipopótamo que você tinha vislumbrado ali à direita no leg press é nenhuma outra que não a sua própria; a rotina de exercícios é feita em meia hora, incluindo aquecimento e alongamento, e as séries são feitas em circuito, sem pausa entre os aparelhos; é tudo totalmente individual, portanto não tem como colocarem você pra fazer algum exercício junto com alguma mulé suada que você nunca viu e poderia perfeitamente bem continuar sem ver e, mais importante ainda, sem TOCAR, pelo resto da sua vida. E o principal : tem estacionamento na porta, com segurança/manobrista educadíssimo. Então fui lá testar o terreno. E a mocinha-bonequinha-gerundista que me atendeu foi tão gentil e fofa que eu nem consigo falar mal dela, por mais que ela tenha me contado, com ar compenetrado e terminologia simplificada, pra tia burra aqui entender, coisas sobre fisiologia e exercícios e saúde e o caraglio d’oro que eu já tava careca de saber – e algumas até de praticar - quando ela ainda nem era um ovinho de codorna no prato do seu jovem papai. Aí me pesaram, me mediram (aparentemente, já encolhi um centímetro ou dois), me fizeram tirar todos os meus anéis e pulseira e relógio e segurar um aparelhinho que passa corrente elétrica pelo corpo da gente e diz o percentual (percentual ? porcentual ? anyone ?) de gordura no corpo do vivente. A corrente elétrica em si é fraquinha e totalmente imperceptível, mas o choque que eu levei ao ouvir a bonitinha dizer que eu tô com mais ou menos 37% de gordura corporal foi de arrepiar até cabelo encravado em cotovelo com psoríase (não, num tenho isso não, é só jeito de dizer, oras. Pêlo encravado em pele supergrossa, entendeu ? Então.). Minha pobre mente corroída pela NTAP galopante, e que além disso sempre foi péssima em matemática e demais ciências exatas, já começou a fazer as contas à sua maneira prejudicada e a decretar que se eu sou formada por 33,3% de água e 37,5% de gordura, praticamente uma ameba, os 29,2% restantes devem ser os ossos pra sustentar meu enorme peso, e portanto eu não tenho um músculo no corpo e, obviamente, nem vísceras. Sabe aquela história de “fazer das tripas coração” ? Comigo não. Eu não tenho coração, babies, sou um bacon vivo, um torresminho ambulante, um vidrinho de Hellwomann’s com pimenta – mas sem o vidro. E foi isso que me convenceu a assinar o termo de compromisso liberando o povo lá de qualquer ônus caso eu caia morta no meio do salão. É que se eu não tenho coração, nem, obviamente, cérebro (da ausência dessa víscera eu já suspeitava há um tempinho), é praticamente impossível que eu venha a sofrer um infarto ou um derrame, mesmo com toda aquela música baiana no último volume, todas as professorinhas adolescentes animadíssimas e gritantes, a vozinha de robô que diz “Mude. De Estação. Agora.” de 30 em 30 segundos e a desoladora paisagem - feminina pra onde quer que se olhe, ugh – ao redor. Mas vamo nessa, né ? Esporte é vida, esporte é saúde, esporte é... um saco. Mas eu não posso mais fugir.
Eu ODEIO essa moda de homem de cabelo comprido. E odeio ainda mais quando são meninos pré-adolescentes de cabelo comprido, numa idade em que os caracteres sexuais secundários ainda não existem, pra gente poder sacar a diferença.
Fal diz :
Puta merda, é verdade. E ainda tem umas mães loucas que deixam o serzinho cabeludo botar brinco. Aí você olha aquilo e não sabe como chamar. Acaba chamando de “meu benzinho”...
Um dos meus ex-cunhados é argentino. Tem mais de 20 anos de Brasil, mas, apesar de já ter esquecido pelo menos 88% do castelhano natal, fez questão de nunca perder ou sequer amenizar o sotaque porteño, porque pega bem com las chicas e las nenas, sabés ? Pues. Depois das belezuras que aprontou com minha irmã, obviamente não faz mais parte do convívio da família, mas como está trabalhando com amigos meus, de vez em quando, querendo ou não, ouço notícias do bonitón. E esta eu tenho que contar pra vocês, porque ouvi há semanas e continuo achando ótima. E porque minha sobrinha riu por horas seguidas depois de ouvir... então lá vai : estava o guapo falando ao telefone com alguém que lhe pedia o código de alguma coisa, suponhamos que o número do chassi de um carro, por exemplo. Minha amiga, escutando só o lado dele da conversa – e é o que basta -, ouve o seguinte "meiálogo" :
- Cinco... dos... ocho... três... bê... sí, bê de barco... xis... rota.
DECLARAÇÃO DE (DESISTÊNCIA DOS) MEUS PRINCÍPIOS POLÍTICOS
Quer saber ? Já que político honesto, trabalhador, bem-intencionado e minimamente capacitado é artigo cada vez mais raro neste (ui, quase tive um ataque de frescura tão exagerada - acima até da minha capacidade - que já ia chamando o país de "frutona tropical de polpa macia e casca amarela", mas já passou, já passou) boteco, raro a ponto de não dar pra achar um em cada um dos cargos que vou ter que ajudar a preencher nessa eleição que vem chegando, acho que vou me superficializar de vez - já faltava pouco, mesmo - e votar nos mais bonitos. Afinal, se depois eu vou ter que ver a cara dos bichos em tudo quanto é jornal, revista, página da internet e noticiário na TV falando de suas roubalheiras, suas maracutaias, suas putarias, seus assassinatos, agressões, peculatos, prevaricações, apropriações indébitas ou simples provas de burrice e gafes variadas, e pior, de suas posteriores absolvições ou no máximo renúncias, que pelo menos eles sejam menos horrorosos e assustadores do que os que eu ando vendo até agora.